segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Mosaico Filosófico/06

1-      A grandeza de um cientista não se define apenas no campo do saber. Tal grandeza se define no campo da sabedoria, que consiste em saber a finitude do saber e a infinitude do não saber humano. O que exalta a sabedoria não é propriamente o que se sabe, mas principalmente, o saber do que se ignora.

2-      Muitos que tem endereços certos tomam por perdidos os que são andarilhos. Ocorre que estes podem conhecer melhor o endereço da liberdade, que aqueles, cujas consciências estão encarceradas nos porões de dogmas e convenções sociais.

3-       Nada sei sobre a imensa floresta que compõe a árvore da vida. Contudo, sinto-me uma folha nesta árvore e vejo muitas outras iguais e diferentes de mim, interligadas. A floresta, a árvore e a folha são inseparáveis, porque compartilham seivas semelhantes e o mesmo metabolismo. Do mesmo modo, na árvore da vida não há lugar para a guerra, para a violência, para a discriminação e para o preconceito.

4-      É preciso ser só, como só são as cordas da viola. Não se faz primavera de uma só flor, nem madrugada de uma estrela só. Não se faz arco-íris de uma só cor, nem amor dum coração só, porque nada vive e se emociona se for apenas só.

5-      Os pontos cegos da inteligência humana geram vazios na mente, que se preenchem com dogmas e preconceitos que impedem a reflexão. Desse modo, não vemos que não vemos e não percebemos que ignoramos. Por isso, há que se ter muita paciência com os dogmáticos e preconceituosos.

6-      Uma nação apavorada pelo medo de viver e com muita coragem para sobreviver será sempre dominada, e nunca poderá ser protagonista de sua própria história.

7-      A droga é o que se vê porque se deseja ver, mas não se vê a verdadeira droga que está por trás da droga – o desamor, a maldade e a hipocrisia humana.

8-      Diante de situações adversas devemos valorizar a vida e a educação, porque através da Educação o cidadão é preparado para a vida, e simultaneamente, capacitado para vencer as adversidades.

9-      As abelhas voam a cada primavera em busca de flores e voltam ao ninho para a partilha do mel. Assim, os alunos voltam de suas férias às escolas, carregados de sonhos e medos e desejosos dos deliciosos favos da convivência e do conhecimento. Se a melgueira não decepciona as abelhas, também a escola não poderá decepcionar seus alunos.

0-  A razão humana, egoisticamente subjetiva a realidade, privatizando-a. Assim, a realidade perde sua transcendência e deixa de ser realidade. A razão, que funciona num dado campo da realidade, se vê, equivocadamente, funcionado no campo da realidade absoluta e tenta impor aos outros, a ferro e fogo, essa verdade particularizada. Se os homens compreendessem esse engodo narcísico, certamente seria fácil respeitar o outro na sua legítima alteridade por situarem-se em domínios distintos da realidade. Desse modo, a religião seria religião e a paz não seria guerra. 
                                                                                    Autor: Gessé Antônio de Souza/2013





segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Enquanto



Em
Quanto.

Enquanto:
Vida,   eu   vivo
 Perdão, eu perdoo
Caminho, eu caminho
Alegria, eu  sou  criança
 Horizonte,   eu   jornadeio
Conhecimento,  eu   quero!

Enquanto houver:
Sabedoria, eu obedeço
Inteligência,  eu   admiro
Justiça,   eu   tenho   orgulho
 Humildade, eu me deixo encantar
Fazer, eu faço; esperança, eu espero!

Enquanto houver:
Terra,  eu   planto
Perguntas, eu pergunto
Grito no meu peito, eu grito
Natal, eu posso nascer de novo
Uma flor, eu quero  o seu  perfume
Igreja, Amor, Livro; eu oro, eu amo, eu leio
Paz e misericórdia, que vibrem as cordas do meu coração!
                           Gessé Antônio de Souza: 07/02/2017

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Da ovelha a lã, do boi a carne

Da ovelha a lã, do boi a carne

Passando por Uchuaia, cidade ao sul do Chile, que pertence a Argentina e por entre aqueles canais que ligam o Oceano Atlântico ao Pacífico, cenário de grande e pródiga beleza natural, entre tantas visões surpreendentes, ater-me-ei ao trivial. Refiro-me às muitas ovelhas, alpacas e lhamas da região da Patagônia, destinadas à tosquia para produção de lã que se presta à fabricação de lindas indumentárias e tapeçarias multicoloridas, de rara beleza. Tal cultura e artes, próprias do arquipélago denominado Terra do Fogo, são inspiradas no frio regional, que forçou os chamados povos nativos a acenderem fogueiras que se distribuíam por todas as ilhas do arquipélago. Fogos dispersos e colunas de fumaça vistas pelo grande navegador português, Fernão de Magalhães, em meio à névoa úmida matinal criou uma ilusão ótica, tal que parecia, ao navegador, tochas flutuantes sobre o mar – por isso, Terra do Fogo. Essa região foi habitada por esses índios há mais ou menos 11 (onze) mil anos e foi colonizada por europeus a partir do meado do século XIX, a pretexto de catequização e cristianização dos mesmos. O processo de aculturação e as epidemias a que foram vítimas, desde então, determinaram a extinção dos aludidos nativos foguinos.
Mais ao norte, na Argentina, observei rebanhos de bovinos cujo ofício primordial é ofertar seu corpo sagrado (hinduísmo) aos dentes afiados de humanos e às bocas sedentas por carne macia, de vorazes comilões que se ajuntam em churrascarias finesses -, verdadeiros templos sagrados da luxúria dos glutões.
De volta ao Brasil, passando pelas terras de Santa Cruz, fui tomado por um sentimento, que tocou os refolhos da minha mente e conduzindo-me a uma reflexão óbvia e ordinária: que se no sul da América se quer da ovelha a lã e do boi a sua carne, é patético que no Brasil algo semelhante acontece entre os humanos, isto é, os políticos brasileiros querem dos ricos e principalmente da classe média trabalhadora, o dinheiro e do pobre, o voto. Por isso, não faltam fiscais de todo lado vigiando as classes médias; seja o leão, o guarda rodoviário, o fiscal a quem trabalha. Vê-se: o policial nas ruas fazendo blitz às pessoas de bem, o fiscal; das águas, da saúde, da educação, da mata, do boi, da galinha, do peixe, do milho e do feijão, do leite, do carvão, do fogo, do ovo e da plantação, o fiscal disso e o fiscal daquilo – e viva a corrupção! Todos querem o bem do país, à custa da nação. Meu Deus, que danação!
 Essa trupe de fiscais ideologicamente arregimentados pelo governo busca a todo custo o dinheiro para os cofres do estado, que se diz a serviço do povo, mas por causa da falta de visão republicana que se soma a uma profunda visão patrimonialista dos governantes, está de fato, a serviço de si mesmo.  Por outro, se observa as elites endinheiradas, em conluio com os governos, bebendo o sangue que ora foi retirado principalmente das veias da classe média e dos trabalhadores. Como visto, não sendo possível sangrar os miseráveis, vamos encontrá-los anestesiados, vivendo promessas messiânicas salvacionistas, ora prometidas por falsos religiosos, ora por políticos majoritariamente profanadores da verdade. Desse modo, multidões de pobres engaiolados em masmorras prisionais, hordas de crianças abandonadas que se transformam fatalmente em bandos de adolescentes infratores, provocam o caos na sociedade, roubando a paz e a tranquilidade de todos. Ninguém, absolutamente ninguém se envolve com esses peregrinos da miséria. Embora, às vezes, são os menos importunados pela justiça e pelo exército de fiscais, dando a eles uma falsa ilusão de liberdade e impunidade, na medida em que tudo podem fazer, sem nenhuma restrição  razoável –, seguido de um assistencialismo perversamente hipócrita. Tais cidadãos de papel, só não podem olhar para o futuro ou almejar alguma dignidade.
Meu Deus! Se Uchuaia é a capital da Terra do Fogo, sendo a cidade mais austral do mundo, denominada, por isso, de Fim do Mundo, penso que tem algo errado nisso, muitíssimo errado. Fim do mundo é o Brasil...


                                       Crônicas avulsas – Gessé Antonio de Souza – 25/01/2017.