segunda-feira, 27 de junho de 2016

Memórias de uma molécula d'água

Memórias de uma molécula d’água.

 Lembro-me muito bem do dia em que nasci. Tudo era muito simples e a vida não existia. Havia muita poeira cósmica e nenhuma organização. Meus progenitores-, dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio viviam perdidos no meio da poeira, até que um dia resolveram se ligar de modo covalente, formando o meu corpinho aquático. Como eu era uma molécula; composta, meio tortinha, assim meio que bipolar, encontrei maneiras de fazer pontes com minhas irmãs, caso contrário, poderia pirar meu cabeção na solidão. Aliás, fazer pontes é o meu hobby principal, minha mania social. Não fossem as minhas pontes, não teria as características e propriedades que tenho, nem minha identidade, às vezes; dura, mole, fria, quente, vaporosa, forte, fraca e insegura – sou assim, por causa das minhas pontes de hidrogênio!
 Meus pais são simples, veja só: o peso ou massa de meu hidrogênio é igual a 1 (um) e o peso ou massa do meu oxigênio é igual a 16 (dezesseis), por isso, meus pais quando se ligam entre si formam substâncias simples e exibem a forma de gás, porque são leves demais.  Os elementos ou substâncias gasosas, mais pesados da natureza, ocupam lugares mais baixos na atmosfera, por serem mais densos. Em decorrência disso, os elementos ou substâncias mais pesados se organizam próximos da Terra ou nas suas próprias entranhas.
Terra, para todas as substâncias, sejam elas simples ou compostas, é como mãe -, a gente quer ficar sempre juntinho dela. Mamãe Terra tem um centro de gravidade que atrai tudo, porém, o que é mais pesado fica mais próximo de seu coração – o núcleo. Pensando nisso, meus pais, que eram substâncias simples e de pouca densidade viviam tristes e deprimidos, longe do coração da mãe Terra. Inteligentes que eram, uniram-se, e desde então, passei a existir – sou uma molécula d’água. Carrego para todos os lados os meus progenitores: viajo com eles no interior da mãe Terra, na sua superfície e em sua atmosfera. Gosto muito de passear na forma de vapor nas correntes ascendentes da troposfera. Quando a coisa fica preta, me transformo em líquido e volto novamente ao seio da mãe Terra.
Para a vida, sou a substância mais importante, dizem que sou bioindicador para as pesquisas no espaço, isto é, onde existo há sempre a possibilidade de desenvolvimento da vida.
- Você sabia que por minha razão, a Terra é azul? Verde e azul são cores da vida!
Sou uma molécula que gosta muito de pontes, não consigo ficar isolada, porque sozinha sou muito fraquinha. Assim, o meu hidrogênio se liga ao oxigênio de outra molécula irmã, por sermos moléculas polares. Por ser assim; fracamente polar, minhas pontes são móveis e posso rolar sobre mim mesma - exibindo a forma líquida..., posso ser vapor ou gelo. Desse modo, vivo em três estados da matéria: sólido, líquido e gasoso; dependendo da temperatura e pressão do ambiente onde estou. Surpreendo todo mundo quando meu tamanho (volume) aumenta, ao mudar do estado líquido para o estado sólido. Por isso, posso quebrar garrafas no congelador, posso matar árvores enormes e posso, por outro lado, até aumentar o nível do mar, quando derreto das minhas geleiras polares. Devido à minha polaridade, sou solvente universal; sou incolor e inodora -, que legal! Outra coisa que faço muito bem é ajudar no controle térmico dos grandes animais e da própria mãe Terra. Na forma de gelo, conservo organismos por muitos anos, favorecendo as pesquisas arqueobiológicas.  Aquelas ondas do mar, que tanto fascinam os homens, decorrem de minha dança Newtoniana com a lua: ora ela me puxa, ora eu a puxo e assim vamos dançando segundo o ciclo lunar – somos lunaticamente românticos.
Quando estou gelada, torno-me rígida como se fosse cristal, se estou agitada e sentindo muito calor, subo às alturas. Gosto dos ventos e das aventuras; solto faíscas, faço trovões e participo de: tornados, ciclones e furacões e assusto; asas delta, helicópteros e até aviões, e se os homens desmatam demais posso fazer erosões.
São muitos os meus caminhos, minhas trilhas e jornadas -, rolo das montanhas e caio nas estradas, passo por mata-burros e canais; irrigo -, trigo, cafezais, vinhedos e canaviais, e de repente, mergulho na terra para nutrir os mananciais.
Eu nasci a bilhões de anos atrás e não tem nada, nesse mundo, que não saiba demais. Por isso, conheço os segredos, os mais embiocados: dos reis, dos filósofos, das lutas políticas, das religiões, das florestas, dos campos e dos animais. Porém, como estou penetrando, emocionada e arrepiada, no solo da mãe Terra, após uma chuva torrencial, meu querido leitor, até o próximo capítulo, tchau!

                                                                            Gessé Antônio de Souza; 12/05/2016

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