Memórias de uma
molécula d’água.
Lembro-me muito bem do dia em que nasci. Tudo
era muito simples e a vida não existia. Havia muita poeira cósmica e nenhuma
organização. Meus progenitores-, dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio
viviam perdidos no meio da poeira, até que um dia resolveram se ligar de modo
covalente, formando o meu corpinho aquático. Como eu era uma molécula;
composta, meio tortinha, assim meio que bipolar, encontrei maneiras de fazer
pontes com minhas irmãs, caso contrário, poderia pirar meu cabeção na solidão.
Aliás, fazer pontes é o meu hobby
principal, minha mania social. Não fossem as minhas pontes, não teria as
características e propriedades que tenho, nem minha identidade, às vezes; dura,
mole, fria, quente, vaporosa, forte, fraca e insegura – sou assim, por causa das
minhas pontes de hidrogênio!
Meus pais são simples, veja só: o peso ou massa de meu hidrogênio é igual a 1 (um) e o peso ou massa do meu oxigênio é igual a
16 (dezesseis), por isso, meus pais quando se ligam entre si formam substâncias simples e exibem a forma de gás, porque são leves demais. Os elementos ou substâncias gasosas, mais
pesados da natureza, ocupam lugares mais baixos na atmosfera, por serem mais
densos. Em decorrência disso, os elementos ou substâncias mais pesados se
organizam próximos da Terra ou nas suas próprias entranhas.
Terra, para todas as substâncias,
sejam elas simples ou compostas, é como mãe -, a gente quer ficar sempre juntinho
dela. Mamãe Terra tem um centro de gravidade que atrai tudo, porém, o que é
mais pesado fica mais próximo de seu coração – o núcleo. Pensando nisso, meus
pais, que eram substâncias simples e de pouca densidade viviam tristes e
deprimidos, longe do coração da mãe Terra. Inteligentes que eram, uniram-se, e
desde então, passei a existir – sou uma molécula d’água. Carrego para todos os
lados os meus progenitores: viajo com eles no interior da mãe Terra, na sua
superfície e em sua atmosfera. Gosto muito de passear na forma de vapor nas correntes
ascendentes da troposfera. Quando a coisa fica preta, me transformo em líquido
e volto novamente ao seio da mãe Terra.
Para a vida, sou a substância mais
importante, dizem que sou bioindicador para as pesquisas no espaço, isto é,
onde existo há sempre a possibilidade de desenvolvimento da vida.
- Você sabia que por minha razão, a
Terra é azul? Verde e azul são cores da vida!
Sou uma molécula que gosta muito de
pontes, não consigo ficar isolada, porque sozinha sou muito fraquinha. Assim, o
meu hidrogênio se liga ao oxigênio de outra molécula irmã, por sermos moléculas
polares. Por ser assim; fracamente polar, minhas pontes são móveis e posso
rolar sobre mim mesma - exibindo a forma líquida..., posso ser vapor ou gelo.
Desse modo, vivo em três estados da matéria: sólido, líquido e gasoso;
dependendo da temperatura e pressão do ambiente onde estou. Surpreendo todo
mundo quando meu tamanho (volume) aumenta, ao mudar do estado líquido para o
estado sólido. Por isso, posso quebrar garrafas no congelador, posso matar
árvores enormes e posso, por outro lado, até aumentar o nível do mar, quando derreto das minhas
geleiras polares. Devido à minha
polaridade, sou solvente universal; sou incolor e inodora -, que legal! Outra
coisa que faço muito bem é ajudar no controle térmico dos grandes animais e da
própria mãe Terra. Na forma de gelo, conservo organismos por muitos anos,
favorecendo as pesquisas arqueobiológicas. Aquelas ondas do mar, que tanto fascinam os
homens, decorrem de minha dança Newtoniana com a lua: ora ela me puxa, ora eu a puxo e
assim vamos dançando segundo o ciclo lunar – somos lunaticamente românticos.
Quando estou gelada, torno-me rígida
como se fosse cristal, se estou agitada e sentindo muito calor, subo às
alturas. Gosto dos ventos e das aventuras; solto faíscas, faço trovões e
participo de: tornados, ciclones e furacões e assusto; asas delta, helicópteros
e até aviões, e se os homens desmatam demais posso fazer erosões.
São muitos os meus caminhos, minhas
trilhas e jornadas -, rolo das montanhas e caio nas estradas, passo por
mata-burros e canais; irrigo -, trigo, cafezais, vinhedos e canaviais, e de
repente, mergulho na terra para nutrir os mananciais.
Eu nasci a bilhões de anos atrás e
não tem nada, nesse mundo, que não saiba demais. Por isso, conheço os segredos, os mais embiocados: dos reis, dos filósofos, das lutas políticas, das religiões,
das florestas, dos campos e dos animais. Porém, como estou penetrando,
emocionada e arrepiada, no solo da mãe Terra, após uma chuva torrencial, meu
querido leitor, até o próximo capítulo, tchau!
Gessé Antônio de Souza; 12/05/2016
Nenhum comentário:
Postar um comentário
Observação: somente um membro deste blog pode postar um comentário.