A vida é assim
Domingo, 22 de janeiro de 2017, fui
ao sítio, em Faria Lemos, para ver como as coisas estavam por lá. Chegando, vi tanta coisa fora do lugar, isso
porque havia viajado uns dias pela América do Sul, onde pude pisar nas terras
Malvinas e ver lindos pinguins, entre outras maravilhas da natureza! Então meu
inconsciente falou: Deixa de devaneio cara! Olha que a festa acabou e você tá
mesmo no mato e sem cachorro para lhe defender! Diante disso, me perguntei: Por
onde vou começar a trabalhar, se quero mesmo arrumar alguma coisa?
Fui então tomado por tão grande
pachorra, que maldosamente abaixou minha pressão. A danada me impediu o
encontro com o ponto e nada consegui fazer ou pelo menos começar um trabalhinho
pequenininho, ainda que fosse à sombra. Foi então que comecei a não começar,
para logo depois, não ter que parar. Um camponês prevenido sabe que tem certas
coisas na roça que é melhor não começar, porque depois há que se terminar. Pra
meu delírio, lembrei-me de um dito popular: A agulha puxa a linha e do mesmo
jeito, a linha puxa a agulha para desaforar -, e depois? Fica tudo difícil de
parar.
Foi então que saí andando para me
enganar, ou melhor, driblar aquela débil vontade de trabalhar, aquela coisa
chata, que assalta a gente de vez em quando, aquela noia que exige muita
paciência para a gente dominar. Bem que eu entenda esse desejo de pobre, esse horroroso
instinto ancestral da escravidão – esse prazer nojento de trabalhar para o
sinhô, sem nada aproveitar. Afinal, me ensinaram desde menininho que o trabalho
enobrece o homem. Contudo, nada me disseram sobre as condições em que se
trabalha, e menos responderam - qual homem o trabalho enobrece?
Disse que saí sem rumo, nem tão sem
rumo assim e acabei encontrando uma árvore frondosa, batizada por lá, com o
nome de ganassaia. Essa tal árvore tem sementes anemocóricas, em forma de
hélice, e que ao vento giram como verdadeiros ventiladores, permitindo às
sementes que se dispersem para todas as direções. Foi uma visão deslumbrante e
espetacular! Cada semente - à mercê da sorte -, num jogo íntimo de suas estruturas
helicoidais com o vento, que ora de silencioso, subia até sibilos uivantes -,
entre agudos e graves. Nunca vi e jamais verei uma folia de sementes se
espalhando em direções, sentidos e alturas diversas, formando uma verdadeira
maratona de coreografias e distâncias percorridas. Nunca soube e jamais saberei
qual a semente campeã, nessa fantástica e deslumbrante manifestação da vida!
Nesse átimo que se abriu, concretizou-se na mais esplêndida luz solar, que cada
ser vivo, simbolizado nas sementes voadoras, responde ao vento de forma
diversa, jamais repetindo a mesma trajetória. Sem nenhuma dúvida ou inibição,
gritei para o mato ínclito: A vida e a felicidade residem no castelo da
diversidade, cujo portal é a simplicidade.
Extasiado, deitei ao chão juncado de
hélices da mais sofisticada maratona. De repente, outra cena se coloca diante
dos meus olhos: uma nuvem de chuva, tipo moita, cai copiosa, como alguém que
chega para comemorar o frenesi das sementes e provocar a inturgescência das
mesmas, e simultaneamente proclamar em bom tom -, agora vocês podem nascer! Eis
que passa a chuva e gotas d’água que ficaram retidas na folhagem de um angico,
bem defronte ao meu altar, transformam-se em lindas contas de prata. Tais
contas brilhantes, ao refletirem a luz do sol feito caleidoscópio, por causa do
leve movimento do vento, que era mais brisa que vento, pareciam reproduzir e
revelar os mistérios insondáveis de Deus. Penso que essas gotas eram divinas e
que do divino receberam permissão para revelar os segredinhos do céu.
Mais adiante corre um tatu-galinha
que se assanhou por causa do cio da terra. Olhando para cima vejo um
gavião-pombo no alto da ganassaia espreitando uma inocente rolinha, que embora
cândida e pura, logrou o gavião num rápido voo e se mergulhou numa robusta
moita de bambu.
Após essa majestosa manifestação da
natureza “in natura”, me lembrei de Domenico De Masi - que ócio criativo! Na
minha lubricidade bucólica, outra vez Domenico De Masi vem falar comigo,
sussurrar no meu ouvido magistralmente: “Somente as pessoas imaturas precisam
de muito dinheiro para preencher bem o seu tempo de folga”.
E eis que o céu se iluminou de maneira como
nunca se tinha iluminado antes e jamais me esquecerei da minha sagrada e inútil
preguiça! Parousia esta, que se imortalizou nas retinas dos meus olhos e encheu
meu coração de entusiasmo e esperança.
Crônicas avulsas – Gessé Antônio de Souza –
20/01/2017.