segunda-feira, 23 de janeiro de 2017

A vida é assim.



A vida é assim

Domingo, 22 de janeiro de 2017, fui ao sítio, em Faria Lemos, para ver como as coisas estavam por lá.  Chegando, vi tanta coisa fora do lugar, isso porque havia viajado uns dias pela América do Sul, onde pude pisar nas terras Malvinas e ver lindos pinguins, entre outras maravilhas da natureza! Então meu inconsciente falou: Deixa de devaneio cara! Olha que a festa acabou e você tá mesmo no mato e sem cachorro para lhe defender! Diante disso, me perguntei: Por onde vou começar a trabalhar, se quero mesmo arrumar alguma coisa?
Fui então tomado por tão grande pachorra, que maldosamente abaixou minha pressão. A danada me impediu o encontro com o ponto e nada consegui fazer ou pelo menos começar um trabalhinho pequenininho, ainda que fosse à sombra. Foi então que comecei a não começar, para logo depois, não ter que parar. Um camponês prevenido sabe que tem certas coisas na roça que é melhor não começar, porque depois há que se terminar. Pra meu delírio, lembrei-me de um dito popular: A agulha puxa a linha e do mesmo jeito, a linha puxa a agulha para desaforar -, e depois? Fica tudo difícil de parar.
Foi então que saí andando para me enganar, ou melhor, driblar aquela débil vontade de trabalhar, aquela coisa chata, que assalta a gente de vez em quando, aquela noia que exige muita paciência para a gente dominar. Bem que eu entenda esse desejo de pobre, esse horroroso instinto ancestral da escravidão – esse prazer nojento de trabalhar para o sinhô, sem nada aproveitar. Afinal, me ensinaram desde menininho que o trabalho enobrece o homem. Contudo, nada me disseram sobre as condições em que se trabalha, e menos responderam - qual homem o trabalho enobrece?
Disse que saí sem rumo, nem tão sem rumo assim e acabei encontrando uma árvore frondosa, batizada por lá, com o nome de ganassaia. Essa tal árvore tem sementes anemocóricas, em forma de hélice, e que ao vento giram como verdadeiros ventiladores, permitindo às sementes que se dispersem para todas as direções. Foi uma visão deslumbrante e espetacular! Cada semente - à mercê da sorte -, num jogo íntimo de suas estruturas helicoidais com o vento, que ora de silencioso, subia até sibilos uivantes -, entre agudos e graves. Nunca vi e jamais verei uma folia de sementes se espalhando em direções, sentidos e alturas diversas, formando uma verdadeira maratona de coreografias e distâncias percorridas. Nunca soube e jamais saberei qual a semente campeã, nessa fantástica e deslumbrante manifestação da vida! Nesse átimo que se abriu, concretizou-se na mais esplêndida luz solar, que cada ser vivo, simbolizado nas sementes voadoras, responde ao vento de forma diversa, jamais repetindo a mesma trajetória. Sem nenhuma dúvida ou inibição, gritei para o mato ínclito: A vida e a felicidade residem no castelo da diversidade, cujo portal é a simplicidade.
Extasiado, deitei ao chão juncado de hélices da mais sofisticada maratona. De repente, outra cena se coloca diante dos meus olhos: uma nuvem de chuva, tipo moita, cai copiosa, como alguém que chega para comemorar o frenesi das sementes e provocar a inturgescência das mesmas, e simultaneamente proclamar em bom tom -, agora vocês podem nascer! Eis que passa a chuva e gotas d’água que ficaram retidas na folhagem de um angico, bem defronte ao meu altar, transformam-se em lindas contas de prata. Tais contas brilhantes, ao refletirem a luz do sol feito caleidoscópio, por causa do leve movimento do vento, que era mais brisa que vento, pareciam reproduzir e revelar os mistérios insondáveis de Deus. Penso que essas gotas eram divinas e que do divino receberam permissão para revelar os segredinhos do céu.
Mais adiante corre um tatu-galinha que se assanhou por causa do cio da terra. Olhando para cima vejo um gavião-pombo no alto da ganassaia espreitando uma inocente rolinha, que embora cândida e pura, logrou o gavião num rápido voo e se mergulhou numa robusta moita de bambu.
Após essa majestosa manifestação da natureza “in natura”, me lembrei de Domenico De Masi - que ócio criativo! Na minha lubricidade bucólica, outra vez Domenico De Masi vem falar comigo, sussurrar no meu ouvido magistralmente: “Somente as pessoas imaturas precisam de muito dinheiro para preencher bem o seu tempo de folga”.
 E eis que o céu se iluminou de maneira como nunca se tinha iluminado antes e jamais me esquecerei da minha sagrada e inútil preguiça! Parousia esta, que se imortalizou nas retinas dos meus olhos e encheu meu coração de entusiasmo e esperança.

                                                    Crônicas avulsas – Gessé Antônio de Souza – 20/01/2017.





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