segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Humildade


Humildade

Guie-se pelo amor e pela humildade
Porque há razões que a razão desconhece
Há mundos distantes, em que o sentido fenece
Porque vidas e corações há, que se fazem na complexidade.

O saber pequeno pode ser grande
E  o  grande saber pode  ser  pequeno
Porque  na  infinitude, tudo  se faz   pequeno
E o pequeno que se vê grande, nada mais é, que miniatura
E o grande que se percebe pequeno, certamente tem estatura.

A alma grande é alma humilde
Porque do húmus nascem esperanças
 Que conduzem ao futuro com robusto verdor
Assim, onde há amor e humildade o passado é atualizado
E tudo, ainda que podre, pode transformar-se em vida ética e épica
De muito, muitíssimo valor –, graça  da  Humildade  e  da catexia do Amor!

                                                                         Gessé Antônio de Souza – 27/10/2016


sexta-feira, 28 de outubro de 2016

A tragédia de Demokey

A tragédia de Demokey


    Há muitos anos, na Via Láctea, mais exatamente numa estrela chamada sol, precisamente num planeta chamado Terra e pontualmente numa ilha cujo nome ainda não se sabe; parei meu telescópio - depois de escandir toda a galáxia -, para examinar algo inusitado: Uma batalha entre duas tribos bestiais. Antes, porém, que me perguntem, ou para evitar confusões inúteis, esclareço que as tribos, as que refiro - não se constituem de asininos, mas se fazem de humanoides; bestificados, desajeitados, emblemáticos, paradoxais, paroxísticos, incongruentes, ignorantes...
         Dirigindo para a Terra as lentes do SKA – Square Kilometre Array ou o similar JWST – James Webb Space Telescope, que temos ambos em nosso planeta, aliás, sucatas antigas que servem de brinquedos para meninos iniciantes em cosmologia -, é possível se ver, com alta resolução, detalhes das batalhas bestiais imemoráveis dos humanoides terrícolas. Utilizando-se os nossos telescópios modernos, podem-se ver detalhes ainda maiores, que nos fazem captar o caos mental e a desorganização cognitiva daqueles míseros viventes que habitam a superfície telúrica. Parecem que tais humanoides são partículas submetidas a altas pressões, que colidem umas às outras, o tempo todo, tendo picos de colisões decorrentes das altas dinâmicas das aludidas partículas, que pela tensão cinética, transformam-se em humanoides bestiais. Parece que, com o aumento das colisões, tais partículas se dividem exponencialmente, determinando polos de altas tensões autodestrutivos. Nuvens de partículas instáveis migram de região em região, como poeira cósmica, só não são cósmicas por causa da gravidade do planeta Terra e pela gravidade da situação dos humanoides.
    Nossas antenas radiotelescópicas associadas a microprocessadores spintrônicos captaram sons vindos da Terra, que juntamente com as imagens obtidas pelo SKA demonstram a luta pelo poder e as guerras que fazem parte da história dos humanoides daquele planeta. Utilizando uma nomenclatura análoga adotada no Planeta Terra para seres vivos, poderemos denominar esses humanoides de Humanopatas terríficus, sendo que, algumas tribos são classificadas pela sua periculosidade e egocentrismo, e por isso, são denominados de: Humanopatas terríficus delinques e Humanopatas terríficus corruptus. Examinando a curva reprodutiva dessas últimas tribos, se percebe que os indivíduos vivem pouco e reproduzem muito, principalmente os representantes da tribo delinques.
       Passaram-se milênios e esses humanoides aprenderam muitas coisas, porém o que existe de mais paradoxal na aprendizagem de tais humanoides é que eles não aprendem com a história – por isso, eles brigam continuamente, sangram uns aos outros, se matam o tempo todo e não entraram ainda em extinção porque são muito reprodutivos e prolíferos. Até hoje eles não compreenderam as leis da cooperação.
       Toda essa estranha dinâmica dos humanoides se dá por causa do poder, pelo desejo de dominação e sujeição do outro. Para isso, inventam; ideologias, religiões, mitos, leis, raças, cor, posição geográfica e questões anatômicas e de gênero, modelos, idealizações, preconceitos e etc. Em síntese, qualquer diferença pode ser critério ideológico para determinar quem tem direito a ingressar ou permanecer na categoria de dominadores; ora por direito natural, ora por direito legal, ora por direito divino.
      É tamanha a loucura dos humanoides que poderá surgir, em qualquer momento, um líder guerreiro, que depois de vencer muitas batalhas e guerras, corando; os rios de sangue, as montanhas de dor e os vales de horror - ficar sozinho no planeta Terra.  Essa besta, que segundo o livro sagrado dos cristãos assemelha-se a uma potranca fogosa, carrega a marca 666 na testa ou na mão. Na testa, para pensar besteira, na mão, para fazer parvoíces e bestialidades. Essa fera, que na Terra se chama Besta 666, vou denominá-la de Demokey, porque nunca aprendeu com a história, nem com Pirro da Grécia, que ao ganhar a batalha de Heraclea contra Roma, suspirou - Mais outra vitória como esta estarei completamente arruinado. Parece que Pirro não era um pirralho cognitivo entre os brutos terráqueos.
        Demokey depois de olhar para todos os lados perceberá tardiamente que sua absoluta vitória foi simultaneamente a sua trágica e fatal derrota. O fato, e principalmente a tragédia, fazem até a mula -, que nunca pensa - pensar.  Ninguém vive no planeta Terra e em qualquer lugar do Universo, na solidão, pois a existência material estará sempre ligada pelo vínculo da gravidade, e do magnetismo. A vida, para além da gravidade e do magnetismo, liga-se pelo vínculo invisível da espiritualidade, cujo escopo culmina na organização da rede da vida que a priori perfaz a dimensão inextrincável do Cosmos.
    Para não ver o fim da civilização dos humanóides terráqueos, vou desligar meu telescópio ou dirigi-lo para a imensidão do Universo.
           
 Gessé Antônio de Souza 18/10/2016..

segunda-feira, 17 de outubro de 2016

O Nó do Sinhô

O Nó do Sinhô
                     
                       

Se a água de medo congelar

                             As pedras do moinho hão de grimpar

                                                 E o milho não será fubá.

                                  E as quitandas da Sinhá?


                                             Se o moinho parar

Cadê o angu da senzala

                      A broa de fubá do Zé

   E a canjiquinha do Mané?


                                               Se a água de medo congelar

                                    O milho no paiol vai ficar

               Os bacurins na senzala hão de chorar

                               E os ratos hão de cantar.


                                       E o Sinhô, o que fará?

             Safadará e safará, safadamente,

                                            Completa-mente,

                                                                             Política-mente?
                                            
                                                                                                    Mente.



                                                                             Gessé Antônio de Souza – 11/03/2009

A minhoca que aprendeu a ler

A minhoca que aprendeu a ler.

Sou uma minhoca, como todas as minhocas, apenas tenho algumas particularidades que me fazem carregar a alcunha de Minhoca Pipoca.
Na verdade, depois de tanto dizerem que sou pipoca, descobri que tenho uns pontinhos no meu corpo que fazem uma coceira teimosa que até parece bicho-de-pé. Esse negócio de me chamarem de Minhoca Pipoca me entristeceu muito. Depois me conformei e finalmente estou achando legal: melhor ser minhoca pipoca que ser minhoca boboca!
Minha coleguinha, para me confortar, disse que minha coceira maneira; bicho-de-pé não é, porque minhoca não tem pé!
Há muito tempo, minha mãe se zangou comigo e foi logo dizendo que eu pulava feito perereca sapeca. Só por isso, minha mamãe passou a me chamar de Minhoca Pipoca. Depois disso, nunca mais me esqueci: que sou Minhoca Pipoca –, mais pipoca que minhoca e que minhoca não tem pé.
Foi assim que me resignei em ser Minhoca Pipoca, considerando que aquela vontade de pular nunca passava; coçava..., coçava..., até que automaticamente pulava.
Um dia de chuva; bem nublado, aproveitei que não tinha sol -, minhoca não gosta de luz, e mui curiosa fui movimentando devagarzinho até a superfície do solo (terra). Foi então que encontrei um livro de Júlio Verne, cujo título era: Viagem ao Centro da Terra. Não é que esse livrinho me deu coceira e pulei feito uma pipoca!  
Foi então que me enrolei no livrinho, retorci entre suas páginas e enrolei-me de novo para descansar. Mal descansei, comecei a pular para cima, para os lados, sulcava a terra e voltava de novo à superfície do solo. De repente, fui arrebatada por uma coceira enorme, mesmo não tendo bicho-de-pé. Descobri que eram meus anéis que coçavam, porque eu sou um anelídeo, cuja espécie se denomina Lumbricus terestris.
 Outra descoberta me veio; que eram neurônios que faziam a coceira, visto que, os mesmos enrolavam-se uns aos outros formando bolinhos que se chamam gânglios nervosos. Ora, se tenho gânglios nervosos, sou um ser vivo muito especial e posso fazer muita coisa. Enroladinha no livro observando os claros e os escurinhos, eu descobri que estava diante de um código de sinais que com meus gânglios poderia decifrar. Foi a maior descoberta do mundo das minhocas, que foi acompanhada de uma grande festa, ocasião em que Minhoca Pipoca recebeu o prêmio “Minhoquel” de Biologia e Literatura. 
Uma noite, depois de muitas estripulias e malabarismos da Minhoca Pipoca rotulada de: esquisita, diferente, sistemática, debiloide, quadrada, hermafrodita, autista, superdotada, sindrômica, minhoca prodígio; dei conta que estava há muitos dias embiscoitada, lendo o livro de Júlio Verne – Viagem ao Centro da Terra.
Terra pra mim é tudo; é minha casa, meu ecossistema, meu nicho e habitat. Por isso, vou penetrar no livro até o centro da terra encontrar, sem minha cutícula queimar.
Foi então que comi o livro todo e depois de digeri-lo calmamente, separando: capítulos, páginas, parágrafos, frases, palavras e letras, utilizando o meu código genético, o reeditei do meu jeito. Essa nova edição ficou arquivada em minha mente, que é mente pequena, ganglionar, contudo, mente inteligente que não mente. Foi assim que guardei nas entranhas dos meus neurônios e da minha alma telúrica, genuinamente barro, terra pura -, todas as informações do livro de Verne.
Outros livros li e sobre minha casa muito eu aprendi. Hoje sei por que minha casa; treme, têm vulcões, águas geladas ou quentes. Aprendi que existem três camadas no Planeta Terra: litosfera ou crosta terrestre, manto e núcleo.

 - Litosfera ou Crosta Terrestre: Camada externa e sólida que circunda a Terra. É constituída por rochas e solo de níveis variados e composta por grande quantidade de minerais. A litosfera possui espessura de aproximadamente 72 km abaixo dos continentes,  que recebe o nome de crosta continental, e espessura de aproximadamente 8 km abaixo dos oceanos,  que recebe o nome de crosta oceânica.

 Assim, as rochas que constituem a litosfera podem ser:
 ·    Rochas magmáticas ou rochas ígneas: são formadas pelo magma localizado abaixo das rochas que se solidificam.
 ·         Rochas sedimentares: formadas pelo acúmulo de detritos em locais adequados, provocados por ações erosivas.

 ·  Rochas metamórficas: formadas por rochas magmáticas e sedimentares que sofreram alterações.
- Manto: Trata-se da camada localizada logo abaixo da Crosta Terrestre e estende-se até quase a metade do raio da Terra. É formada por vários tipos de rochas que, devido às altas temperaturas, encontram-se no estado pastoso e recebem o nome de magma.

- Núcleo: Constitui-se da camada mais interna do planeta e representa cerca de 1/3 de toda a massa da Terra. Possui temperaturas altíssimas e acredita-se que seja formado por metais como ferro e níquel, entre outros elementos.                          

Sei que existe um ser humano que mora na superfície da crosta terrestre, que está destruindo o nosso planeta. Por isso, chove menos, a nossa casa está mais quente, o nosso solo mais abafado, pobre e empaçocado. As florestas estão acabando, as tempestades estão aumentando e as garoas diminuindo. Muitas doenças estão aparecendo, lixos e corpos estranhos por todos os lados, os nossos alimentos; contaminados, e os microrganismos, que dão vida ao nosso solo, estão ameaçados e outros em extinção. Para os homens a terra é morta, para nós a terra é viva.

Dizem que os homens são inteligentes, porém, parece que as minhocas cuidam melhor do meio ambiente que os homens. Penso que em cuidados com a vida e com o Planeta Terra é melhor ser minhoca que Homo sapiens sapiens.

 Mais vale um sistema nervoso rudimentar funcionando bem, que um sistema nervoso complexo comprometido pela arrogância, pela ignorância ou pela ganância.

 São estas as palavras finais de uma minhoca que pipoca por uma terra melhor e que jamais tem a intenção de colocar minhoca na cabeça de alguém, sobretudo se esse alguém for ninguém.

                                                                       Autor: Gessé Antônio de Souza: 2014

quinta-feira, 13 de outubro de 2016

O Lamento das Minas Gerais



O Lamento das Minas Gerais

Deram seis horas da tarde
Bateu, dezoito horas, o sino
Suou o dia com muito alarde
Soou onipotente o silêncio do destino.

Oh mineiras minas vazias!
Cadê o brilho do ouro?
O preto, o amarelo e o branco das vias?
E as feridas do escravo na alma e no couro?

Agora só há silêncio na poeira
Um gemido pungente e distante na bateia
Muitas voçorocas, ravinas e coceira
Até  onde havia a eira, a beira e ouro na candeia.

O Juiz da História interveio e decretou
Às dezoito horas o sino tocou -, o ouro acabou...
Hoje, em cruenta e cruel sangria o ferro se vai
E tudo se acabará novamente nas Minas, uai...
                                     
                                 Gessé Antônio de Souza : 04-03-2015

A Poluição Ambiental



A Poluição Ambiental

O Agente Ambiental sai:
A soltar os pássaros,
A soltar as pacas,
A soltar os sanhaços e os sabiás.
Solta os trinca-ferros,
Os canários-da-terra...
Solta os gambás e os tamanduás.

O Agente sai veloz cumprindo o seu dever,
Expandindo o eco da liberdade ingênua.
Esfalfado arauto da vida, do meio ambiente!
Anda alígero pelas florestas, sobe as serras e riachos,
Prende; os pescadores, os cortadores, as varinhas de anzol.
Prende os peixinhos e os priva do rio e do sol.

Oh mísero, que livre arbítrio já não tem mais!
Tornou-se simulacro da liberdade – sofisma ambiental.
Converteu-se em ideologia deambulante que cega a reflexão.
Enquanto solta o passarinho, a paca e o canarinho,
Enquanto espadeira à Quixote a poluição,
Certamente não tem liberdade na gaiola em que habita.

A poluição primeira – oh mísero ambientalista!
Não é ambiental, é voçoroca humana.
É poluição ética, é poluição política,
É poluição da emoção e da cognição,
É poluição da alma e do coração,
É poluição educacional,
É poluição moral.
Gessé Antônio de Souza – 12/02/2000.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Mosaico Filosófico/parte 02

1-      A miséria é a grande inimiga da moral, quando a primeira se estabelece, a última desvanece.

2-      A pior cegueira é a cegueira da razão - que quando coletiva - desencadeia uma sucessão de eventos negativos que culmina na decadência de um povo.

3-     Faça massagem ética; no corpo, no ego, na alma, no coração – em qualquer lugar, pois massagem ética significa mensagem de amor – cordisética.

4-      A energia presente na água, que nutre os peixes e faz a cachoeira pular, ao passar pelas turbinas se transforma, podendo iluminar, matar, esturricar, carbonizar. Assim, a energia que corre do espírito humano, ao passar pelas religiões, pode se deformar e queimar - não o corpo - mas a alma humana.

5-      O vento que sopra a floresta num dado momento é sempre o mesmo. Porém, as maneiras como as folhas vibram ante esse vento é sempre imponderável.

6-      O homem é um enganador, engana tão perfeitamente, que finge que é paz a guerra que vende, finge o doce amargo da vida, como amargo que não é doce e o doce-amargo, como se doce, fosse.

7-      Não se abata – todo homem é mais importante que sua dor, que sua virtude, que seu vício, que sua riqueza, que sua pobreza, que seu pecado, que sua educação, que sua tribo, que sua saúde, que seu problema, que sua doença – basta ter atitude e fé, caminhar e ser feliz, onde estiver.

8-      A maior bomba que a humanidade está construindo resulta do crescimento geométrico da tecnologia e do crescimento inversamente proporcional da sabedoria. Se a sabedoria tender a zero a ignorância tenderá ao infinito e essa bomba se detonará.

9-      Todo texto é como o barro e todo leitor como o oleiro. Depende da sensibilidade do leitor a beleza da interpretação que emerge do texto.

10-  O desconhecido se faz inexistente, pela ausência de sua obra. O conhecido se dá a conhecer, não por sua presença física ou geográfica, mas pela manifestação incontestável de sua ação.  

* Alguns pensamentos de um pensa-dor, que não sabe se pensa ou se pensa a dor. Todavia, que se não pense a dor, que se esqueça o pensamento do pensador, quiçá, o próprio pensador.