sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Existem dois cachorros e um só cão

Existem dois cachorros e um só cão.

Alhures, depois do parto distócico em uma vaca preta, dei numa estrada empoeirada, lá pelas bandas das seis. O sol estava caído, minguado, enfraquecido, anêmico feito moleque de barriga de bodoque. Quando se dá com o dedo médio na barriga de menino pobre pra ver se tem timpanismo, a pele do coitado vibra como corda de berimbau. Isso é apenas uma curiosidade de doutor.
De repente, dei conta que estava perdido, visto que a estrada que trafegava, de tão fina, parecia uma longa lombriga. Foi então, que parei em frente a uma cafua, tentando encontrar rumo. Seis meninos ou meninas - sei lá, correram para o mato. Não vi o rosto de nenhum deles, apenas contei doze pernas velozes, em frenesi.
Afirmei para o meu auxiliar de Veterinária – que estava em dúvida-, que eram seis meninos apavorados, que estavam a esconder atrás das bananeiras. Em cafuas, tudo se faz atrás das bananeiras. O auxiliar, homem espirituoso, logo retorquiu: - Podem ser seis ou até doze, se tiverem entre eles alguns sacis.
O maldito auxiliar sempre me trazia a malvada dúvida. Naquele dia mesmo, tive que abrir a vaca duas vezes, considerando que o maldito havia dito que larguei uma pinça, dente de rato, na barriga da Preta. Para meu gosto ou desgosto, não é que o danado tinha razão!
Vamos ao que interessa; batemos palma, gritamos – ô de casa, ô de casa, até que apareceu uma velha engelhada que parecia ter cento e dez anos, que disse:  - Não atormente o meu juízo, que tô de lua de mé.
Meu auxiliar, muito ladino que era; não se sabe o que deu na cabeça dele, chicoteou com o dedo médio no barrigão da mulher e disse: - Não é menino não doutor, tem som de berimbau, tá que é verme puro, ao que respondi: - Ascaris lumbricóides, Necator americanus, Ancylostoma sp e outros “bichitos” mais. A mulher, irada, estumou o cachorrinho magricela, que estava escoltando a gente, e logo saiu dos fundos do casebre uma matilha de outros cães, ainda mais magros, demonstrando que eram portadores assintomáticos de leishmaniose.
Entramos aos tropéis na picape perseguidos pela matilha, que mais fazia poeira que latia.
Meu auxiliar era negro, e o danado do magricelo – cachorro fedorento, só corria atrás do meu auxiliar, até que arrancou dele um bornal que continha todas as nossas cordas de contenção de animais, antes que o mesmo adentrasse na caminhonete.
O certo é que fomos embora, sem nunca saber se era fato a tal lua de mel da velhinha, que era idosa - não pela idade, mas pelo abandono e maus tratos a que são submetidos muitos camponeses abandonados.
Dia perdido aquele, parece que nada queria dar certo. Então, aceleramos a picape e zarpamos, mesmo sem rumo certo. Não é que a cachorrada correu atrás da caminhonete e o fedorento esquálido correu feito atleta, ao lado do carona, latindo feito danado, até desaparecer no retrovisor, perdido num canudo de poeira!
Aliviados, chegamos a uma fazenda, logo ao anoitecer, e agora outra matilha nos atacou e eram cachorros mais robustos. Uns dois queriam me atacar, porém, quatro ou cinco partiram para cima do meu auxiliar. Não tendo alternativa, entramos correndo na picape, quando vi um cachorro carregando, nos dentes, um pedaço da  calça do meu auxiliar.
Muitas peripécias aconteceram, até que achamos o caminho de volta. Não vamos enumerá-las aqui, porque senão o leitor não terá energia suficiente para ler o resto da crônica.
Somente lá pelas duas horas da madrugada chegamos a nossa casa, depois de enfrentarmos muita poeira, lama e beber gasolina. Esse negócio de puxar gasolina pela boca para acabar com pane seca de carro é a maior desgraça de um pobre coitado. Pior que isso, é ter que dar explicações à Patroa, que já dormiu e acordou pela décima vez durante a malfadada noite. Quem consegue, a essas alturas, convencer a mulher que tais acontecimentos são peripécias da profissão?
O certo é que não dormi mais e peguei numa reflexão madrugada adentro. Juntei umas peças do passado profissional – passado serve para isso, refazer o presente. Lá pelas cinco horas da manhã fechei meu raciocínio. Talvez o meu raciocínio desse uma tese de mestrado, ou melhor, uma de mestrado e outra de doutorado, para o  coroamento de todo aquele sofrimento.
Confesso que outra reflexão veio e a explicito, em breve. O que me ocorreu como hipótese, é tão óbvio que não requer qualquer tipo de demonstração. É coisa, assim, como provar que: 2+2 = 4, 0/x = 0, e que x/0 = ?
Foi então, que perdi o entusiasmo e percebi que essa tese não dava; nem tese, nem tesinha, nem tesão.
Vou contar agora o que constatei pela metodologia empírica e observação aguçada de um veterinário que andou muito pelas fazendas afora – que vivemos em um mundo de cão, assim divididos: Cão da casa grande e o cão da senzala.
O cão da casa grande era adestrado para atacar os pobres, que coincidentemente eram negros e mulatos da senzala. Havia, portanto, uma seleção artificial de cães com base em um conjunto de características zootécnicas que interessavam à Casa Grande, a saber: cão de raça boa é aquele que; come carne, é grande, mija alto – se macho, late grosso (grave), ataca preto e moleque de senzala. Por outro lado, cão de senzala é aquele que come preferencialmente angu, é pequeno, anda de rabo baixo, come carniça, come pouco, não briga com cão da casa grande, late fino (agudo) e jamais morde em menino de Sinhô.
Finalmente, vou revelar o que observei como veterinário e psicólogo de cachorro: que até hoje existem psiquismos ancestrais alojados na cabeça dos cães de fazenda, que fazem com que os danados reconheçam pelo cheiro ou pela cor a quem devam atacar, e por isso, atacam preferencialmente pobres e pretos a ricos e brancos. Nem Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala, observou tão sutil discriminação. Meu Deus, que tamanha cachorrada! Até os cachorros da casa grande aprenderam a discriminar, tornando-se hábeis pecadores por causa dos homens. Por isso, penso que, nesse mundo, exista um só cão – e esse danado.
Por fim, esses tipos de cães, até onde se pode observar estão diminuindo nos campos. Porém, se veem outros cães, ainda mais perigosos prosperando e ameaçando; não mais as fazendas, mas as cidades, que também estão divididas em casa grande e senzala, para o horror de todos e para a desgraça da civilização moderna.  Não faz muito tempo, quando fui ao Rio de Janeiro e subi ao Pão de Açúcar pude ver nitidamente a casa grande e a senzala – dois brasis em apartheid, naquela metrópole. Foi lá, desse mirante, que lancei um olhar panorâmico por todo o Brasil e vi muitas casas grandes e senzalas espalhadas por todo o território brasileiro.
Por isso, se observa, sem lupa: que nas cidades há homens em locais estratégicos, às vezes aquartelados, vigiando a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, e esses são semelhantes aos cães da casa grande, evidentemente a serviço dos novos senhores e a cumprir a missão sagrada de manter, à custa do suor da senzala, a ordem (ou desordem) social, que tanto interessa à Casa Grande.
                                                                         
Gessé Antônio de Souza:  08/01/2016

         

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Quem sou eu?

Quem sou eu?

Sou muitos: sou o que sou, sou o que penso ser, sou o que pensam de mim. Posso ser aquilo que não pensam de mim e ser aquilo que não penso de mim. Quanto ao ser ou o não ser, trata-se de uma questão tão complexa quanto à origem do universo, considerando que, as múltiplas percepções de cada um são caricaturas ou sombras da realidade do ser.
Sei que cada qual que me conhece faz uma determinada caricatura de mim, e o que é pior, eu mesmo me vejo nublado segundo rótulos e adesivos que colocam em mim. Sei que as caricaturas de mim são modos de desenhar alguém com base no jeito que cada um tem de perceber as coisas, do mesmo modo como existem maneiras diferentes de conhecer alguém. O jeito daqueles que não me conhecem podem ser jeitos do desconhecimento de cada um, considerando que, existem muitas formas de desconhecimento daquilo que não se conhece. Contudo, o conhecimento não é o bastante para se conhecer alguém, porque o que importa é o conhecer bem, isto é, conhecer profundamente.  Como conhecer bem, a alguém, é impossível, resta-nos acreditar que as pessoas são do bem, com base na congruência essencial da vida. Por isso, a fé é virtude cardeal quando a razão não consegue dar direção e sentido à vida.
Desconfiar do conhecimento é sempre bom, visto que, aquilo que se julga conhecer muda e dependendo do tempo e do espaço do “conhecido” ou de quem se diz conhecedor, as visões e percepções são completamente outras, porque se está diante de novos cenários, haja vista, ser a vida um mosaico em movimento, frequentemente randômico.
No processo de conhecimento, o desconhecido é frequentemente maior que o conhecido, e o conhecido fica, de algum modo, impactado, quando passamos a agregar ao campo do conhecido àquilo que pertencia ao campo do desconhecido. Isso é verdadeiro, considerando que a presença ou a ausência de um ser, seja ele qual for, impacta ou altera a configuração do ambiente ou do campo onde se situa o observador. Se existe algo e não se percebe sua presença, conclui-se que o observador está diante de uma visão caricatural de si e da realidade que o envolve.
Muitas vezes nos decepcionamos com pessoas ou com coisas, porém, tal desencantamento resulta do nosso desconhecimento e não das pessoas ou das coisas que julgamos nos decepcionar. A decepção não está aprioristicamente fora de nós, a mesma reside no nosso desconhecimento a respeito daquilo que julgamos conhecer, considerando que, todo conhecimento, seja ele falso ou verdadeiro, nos impõe determinadas expectativas a respeito daquilo que supomos conhecer. Sendo assim, não devemos nos irritar com os outros ou com a realidade, apenas devemos buscar o conhecimento para que possamos nos desapontar menos, visto que, as nossas expectativas carecem de maior aproximação com a realidade, para que, as possibilidades de desapontamento sejam mínimas no decurso do nosso relacionar.
Ao fim e ao cabo, o que sobrou de mais importante se declina: que a decepção com a vida ou com quaisquer pessoas ou objetos que nos cercam deriva, a priori, do nosso desconhecimento -, em outras palavras, da nossa própria ignorância. É muito perigoso transformar o universo percebido em Universo real.
Por conseguinte, a palavra chave para o viver bem é o cuidado que devemos ter com as nossas atitudes diante da vida. Quando se fala em atitude está se falando principalmente da busca contínua do conhecimento, que é muito mais que o acúmulo de informação. Portanto, o conhecimento, qualquer que seja ele, quando transformado generosamente em sabedoria, por quem a deseja, produz atitudes que permitem um viver digno e a oportunidade de alcançar um mínimo de coerência em cada ponto do percurso que compõe a vida de cada um e da humanidade como um todo, considerando a dimensão sócio-histórica do ser humano.
Tentamos, de modo breve, beliscar no ego humano, que a priori e egoisticamente se coloca como uma personalidade permanente, relutante em fazer mudanças e passagens no transcurso da vida, frequentemente negando a ação permanente do meio sobre o destino humano e a ação do tempo, que embora visível, se rejeita, ao utilizar-se dos recursos da cosmética, por não se entender a ética do cosmos.
Uma simples equação pode resumir tudo que estamos tentando dizer, a saber:



Informação .....  Conhecimento ..... Sabedoria ..... Atitude ..... Bem viver.

          

    
“O universo não é uma ideia minha. A minha ideia de universo que é uma ideia minha. A noite não anoitece pelos meus olhos. A minha ideia da noite é que anoitece por meus olhos.” (Fernando Pessoa).

Gessé Antônio de Souza; 14/02/2016


quinta-feira, 11 de fevereiro de 2016

A minhoca que aprendeu a ler.

Sou uma minhoca, como todas as minhocas, apenas tenho algumas particularidades que me fazem carregar a alcunha de Minhoca Pipoca.
Na verdade, depois de tanto dizerem que sou pipoca, descobri que tenho uns pontinhos no meu corpo que fazem uma coceira teimosa que até parece bicho-de-pé. Esse negócio de me chamarem de Minhoca Pipoca me entristeceu muito. Depois me conformei e finalmente estou achando legal: melhor ser minhoca pipoca que ser minhoca boboca!
Minha coleguinha, para me confortar, disse que minha coceira maneira; bicho-de-pé não é, porque minhoca não tem pé!
Há muito tempo, minha mãe se zangou comigo e foi logo dizendo que eu pulava feito perereca sapeca. Só por isso, minha mamãe passou a me chamar de Minhoca Pipoca. Depois disso, nunca mais me esqueci: que sou Minhoca Pipoca –, mais pipoca que minhoca e que minhoca não tem pé.
Foi assim que me resignei em ser Minhoca Pipoca, considerando que aquela vontade de pular nunca passava; coçava..., coçava..., até que automaticamente pulava.
Um dia de chuva; bem nublado, aproveitei que não tinha sol -, minhoca não gosta de luz, e mui curiosa fui movimentando devagarzinho até a superfície do solo (terra). Foi então que encontrei um livro de Júlio Verne, cujo título era: Viagem ao Centro da Terra. Não é que esse livrinho me deu coceira e pulei feito uma pipoca!  
Foi então que me enrolei no livrinho, retorci entre suas páginas e enrolei-me de novo para descansar. Mal descansei, comecei a pular para cima, para os lados, sulcava a terra e voltava de novo à superfície do solo. De repente, fui arrebatada por uma coceira enorme, mesmo não tendo bicho-de-pé. Descobri que eram meus anéis que coçavam, porque eu sou um anelídeo, cuja espécie se denomina Lumbricus terestris.
 Outra descoberta me veio; que eram neurônios que faziam a coceira, visto que, os mesmos enrolavam-se uns aos outros formando bolinhos que se chamam gânglios nervosos. Ora, se tenho gânglios nervosos, sou um ser vivo muito especial e posso fazer muita coisa. Enroladinha no livro observando os claros e os escurinhos, eu descobri que estava diante de um código de sinais que com meus gânglios poderia decifrar. Foi a maior descoberta do mundo das minhocas, que foi acompanhada de uma grande festa, ocasião em que Minhoca Pipoca recebeu o prêmio “Minhoquel” de Biologia e Literatura. 
Uma noite, depois de muitas estripulias e malabarismos da Minhoca Pipoca rotulada de: esquisita, diferente, sistemática, debiloide, quadrada, hermafrodita, autista, superdotada, sindrômica, minhoca prodígio; dei conta que estava há muitos dias embiscoitada, lendo o livro de Júlio Verne – Viagem ao Centro da Terra.
Terra pra mim é tudo; é minha casa, meu ecossistema, meu nicho e habitat. Por isso, vou penetrar no livro até o centro da terra encontrar, sem minha cutícula queimar.
Foi então que comi o livro todo e depois de digeri-lo calmamente, separando: capítulos, páginas, parágrafos, frases, palavras e letras, utilizando o meu código genético, o reeditei do meu jeito. Essa nova edição ficou arquivada em minha mente, que é mente pequena, ganglionar, contudo, mente inteligente que não mente. Foi assim que guardei nas entranhas dos meus neurônios e da minha alma telúrica, genuinamente barro, terra pura -, todas as informações do livro de Verne.
Outros livros li e sobre minha casa muito eu aprendi. Hoje sei por que minha casa; treme, tem vulcões, águas geladas ou quentes. Aprendi que existem três camadas no Planeta Terra: litosfera ou crosta terrestre, manto e núcleo.
 - Litosfera ou Crosta Terrestre: Camada externa e sólida que circunda a Terra. É constituída por rochas e solo de níveis variados e composta por grande quantidade de minerais. A litosfera possui espessura de aproximadamente 72 km abaixo dos continentes,  que recebe o nome de crosta continental, e espessura de aproximadamente 8 km abaixo dos oceanos,  que recebe o nome de crosta oceânica.
Assim, as rochas que constituem a litosfera podem ser:
  • Rochas magmáticas ou rochas ígneas: são formadas pelo magma localizado abaixo das rochas que se solidificam.
  • Rochas sedimentares: formadas pelo acúmulo de detritos em locais adequados, provocados por ações erosivas.
  • Rochas metamórficas: formadas por rochas magmáticas e sedimentares que sofreram alterações.
- Manto: Trata-se da camada localizada logo abaixo da Crosta Terrestre e estende-se até quase a metade do raio da Terra. É formada por vários tipos de rochas que, devido às altas temperaturas, encontram-se no estado pastoso e recebem o nome de magma.
- Núcleo: Constitui-se da camada mais interna do planeta e representa cerca de 1/3 de toda a massa da Terra. Possui temperaturas altíssimas e acredita-se que seja formado por metais como ferro e níquel, entre outros elementos.                         
Sei que existe um ser humano que mora na superfície da crosta terrestre, que está destruindo o nosso planeta. Por isso, chove menos, a nossa casa está mais quente, o nosso solo mais abafado, pobre e empaçocado. As florestas estão acabando, as tempestades estão aumentando e as garoas diminuindo. Muitas doenças estão aparecendo, lixos e corpos estranhos por todos os lados, os nossos alimentos; contaminados, e os microrganismos, que dão vida ao nosso solo, estão ameaçados e outros em extinção. Para os homens a terra é morta, para nós a terra é viva.
Dizem que os homens são inteligentes, porém, parece que as minhocas cuidam melhor do meio ambiente que os homens. Penso que em cuidados com a vida e com o Planeta Terra é melhor ser minhoca que Homo sapiens sapiens.
 Mais vale um sistema nervoso rudimentar funcionando bem, que um sistema nervoso complexo comprometido pela arrogância, pela ignorância ou pela ganância.
 São estas as palavras finais de uma minhoca que pipoca por uma terra melhor e que jamais tem a intenção de colocar minhoca na cabeça de alguém, sobretudo se esse alguém for ninguém.


Autor: Gessé Antônio de Souza:03/02/2015

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A árvore que dava amor

A árvore que dava amor

        Nem muito distante, nem muito perto do sol girava um planeta de forma quase redonda, como todos os planetas que giram em torno de qualquer estrela. Esse negócio de girar, mesmo que seja no ar, faz tudo redondo, como se fosse uma engrenagem complexa de um grande motor. Se, se está girando, em algum lugar que não seja no vácuo, mais cedo ou mais tarde, após um tempo geológico – lógico, terá que se arredondar.
       Nesse planeta, quase redondo, moravam seres humanoides – entre outros – quase quadrados e mui irregulares, que se trombavam o tempo todo, se feriam, se machucavam, até que os líquidos vitais de muitos se esvaíssem, muitos sofrimentos desnecessários eram vividos. Como elaborar conceitos era muito trabalhoso, o que mais rolava, entre os humanoides, era o preconceito, inveja, medo, ciúme, desconfiança, alienação. Perceber e relacionar-se com a verdade era muito difícil, e por isso, multiplicavam-se os mitos. Embora, os habitantes mais avançados buscassem a verdade, sempre a confundiam com fantasia e a vida cotidiana parecia mais circo que realidade, não obstante, a maioria entender exatamente o contrário, isto é, que havia mais realidade que circo.
        As guerras, separações, ódios e rancores eram decorrentes das crenças circenses, porque não sabiam, até então, separar uma e outra coisa – a realidade da fantasia, visto que, o pensamento mágico era muito valorizado. Por outro lado, os habitantes eram religiosos, conquanto as religiões confirmassem os mitos e fantasias tramados ao longo da história, sobretudo pelo grupo dominante. Por isso, a religiosidade que deveria lubrificar as relações entre os humanoides, causava ainda mais atrito.
       A vida seguiu por séculos assim e quem, por ventura, aventasse a possibilidade de mudança, geralmente era sacrificado em nome de deus ou da ordem política, quiçá para a honra de ambos.
       Nos últimos tempos, porém, aconteceu um fato inédito, cujo protagonista foi uma peça eletrônica a que chamaram de celular, que era de fato uma cela. Essa peça parece que puxou o cérebro para os dedos e os humanoides não pensavam mais. Deambulavam pelas ruas, trombavam nos postes, caiam nos riachos e pisavam em cima de espinhos e animais peçonhentos sem nada perceberem. Os humanoides, em celular, se tornaram ainda mais agressivos, fofoqueiros, brigões, maledicentes, isso porque perderam as habilidades sociais e psíquicas ancestrais, considerando que, há milhares de anos eles se relacionavam corpo a corpo, olho no olho, boca no ouvido e ouvido na boca, e agora, por causa do celular, tudo é à distância, mesmo não havendo distância. As doenças psiquiátricas, nesse planeta, enquanto cresciam em progressão geométrica, eram reivindicadas como de autoria dos celulares, que cresciam em progressão aritmética.
        Um dia, me contaram e ainda bem não sei se é um sonho, mito ou fantasia ou se é força do destino ou cinética das peças que compõem os movimentos do planeta onde moram esses estranhos humanoides –, que houve uma mudança brusca e esses humanoides sofreram um rápido arredondamento e as relações entre eles se tornaram mais humanas, menos celulares e mais silenciosas.
       Tudo começou em uma floresta, não obstante esses humanoides acharem que as florestas não eram importantes, quando um menino; encantado e puxado pela grimpa esverdeada de uma montanha, a resolve escalar.
     Coroando a grimpa, se via uma grinalda de névoa úmida, que descia lateralmente a montanha, transformando-se em chuviscos, que ao sol, pareciam raios de prata nas mãos de um grande artesão. O menino, fazendo zigue-zague, empina a montanha e a cada grau de altitude, o menino cantava repetidamente: Ontem um coleguinha com quem brincava me falou, que hoje é sempre semente do amanhã. Por isso, o menino subia sem se desesperar e nem mesmo parou um só momento de sonhar, porque do céu se ouvia: - Não se entregue, suba sempre às manhãs.
         Foi subindo às manhãs que  o menino  um dia encontrou uma árvore que dava frutas de amor. Ao comer os frutos, o menino foi tomado de amor e amou ainda mais. Foi então que o menino ou o amor tomou alguns fios de cipó e teceu uma cesta que se encheu de frutas de amor. Como água que desce da montanha para regar os campos e as plantações, desce nas mãos do guri o cesto de amor e muitos da rua onde o menino morava e os da casa comeram da fruta do amor.
          Foi tão grande a mudança, que  até  os celulares  ficaram abandonados. Todos da cidade queriam saber onde comprar os frutos do amor. Foi aí que o menino falou:  – Vamos, olhe para cima e para frente, porque juntos subiremos a montanha, e lá encontraremos a árvore da vida, carregada com frutas do amor.
             Nunca  se viu tanta coragem  e  todo  o  povo da  cidade  subiu  a  montanha  e se fartaram com os frutos de amor. O planeta todo tomou conhecimento e todos se dirigiram para o monte, comeram da árvore da vida, da árvore que era só amor.
            Após a descoberta, nunca mais aquele planeta foi o mesmo e o amor era amor em todos os lugares e em todas as pessoas, por isso, todos tinham tudo e ninguém precisava de mais nada, porque o amor é tudo.
       Assim, em cada vida e em cada planeta o amor brilha, porque no alto vive e a todos pode iluminar.                                                   

Gessé Antônio de Souza: 03/01/2016.

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Saga do Zé.

     

       O Zé era um homem muito dedicado, amava a sua esposa profundamente e sempre entendia que daria a vida para salvá-la de qualquer situação que a colocasse em perigo.
       Certo dia, Maria, a esposa do Zé, caiu enferma. Sentia calafrios, dor de cabeça, queimava de febre, vomitava e não aguentando mais, se acamou. O coitado do Zé, ficou muito triste, fez todos os chás da Vovó: Camomila, Macaé, Boldo, Saião, Confrei ...  e nada da Maria melhorar. O Zé, então, foi a um botequim e comprou: Novalgina, Aspirina, AAS, Melhoral e foi dando tudo à Maria, conforme o Boticário lhe indicara. Maria, quanto mais remédio tomava mais doente ficava.  
       O Zé, à cabeceira, deixou derramar rosto abaixo uma lágrima de dor e outra de profunda angústia acompanhada de decepção. Nesse ínterim, olhou perdido - através da janela semi-aberta,   para a pequena rua onde morava, quando à sua frente passava o compadre Bastião aos tropéis pela calçada.
- Bastião, me socorre, sua cumade Maria  está fazendo  termo e precisa de sua ajuda.
Ocorre que o Sr. Sebastião trabalhou em algumas farmácias, no Rio de Janeiro, e por ali se dizia que o Bastião era que nem doutor.
- Oi, Zé. O que aconteceu com a cumade Maria?
- Tá muito doente, cumpade.
- Vou aí vê Ela, disse o Sebastião.
O Sr. Sebastião entrou e foi direto para o quarto da moribunda. Em seguida, com ares de doutor, colocou a mão na testa da doente e sentiu a mão pegar fogo de febre. Observou o corpo caquético, a tez abundante que cobria aquele corpo carente, sobrava pele e faltava corpo naquele quarto sofrido.
- Pelo visto Zé, o caso da cumade Maria é grave e você vai ter que procurar um doutor.
- Mas você não é doutor, Bastião.
- Sou doutor, Zé, mas não para esse caso complicado.
- Mas Bastião, você sabe que aqui na Vila não existe médico, nem farmácia boa, isso aqui é um cafundó do Juda.
- Zé, num brinca comigo, você não dá a vida prá salvar a cumade  Maria?
- Dou, Bastião, prefiro morrer no lugar dela.
- Então vou lhe dá um conselho. Tá vendo aquele trilho que sobe naquela calha entre as duas montanhas, bem ali, à sua frente?
-Tô vendo, Bastião, me diga logo o que tem lá!
- Zé, lá não tem nada, nada mais é que um caminho escarposo, pedregoso, difícil de passar, mas se você seguir por ele e caminhar uns três dias mais ou menos, você encontrará um doutor especial que vai curar a sua patroa, minha distinta cumade.
- Sua expricação é pouca, Bastião!
- Calma, Zé, você está afadigado, vou lhe explicar melhor.
- Olha, caminha uns três dias e se andar bem, então ao cabo do terceiro dia você vai olhar para frente e vai ver um rio. Visto o rio, é só você atravessar para o outro lado. Atravessou; então você arriba a cabeça, olha prá frente como quem tá olhando prum boi no roçado. Você vai ver uma casa, mais ou menos um tiro de espingarda prá sua frente. Se você olhar bem, vai ver uma varanda e nela vai observar um velhinho de barbas brancas parecido com  Papai Noel. Ele vai tá lendo um livro. Esse homem é um sábio e nunca houve na terra quem o procurasse com doença braba que não curasse com umas poucas garrafadas. Então, Zé, como já anoiteceu saia amanhã de madrugada.
- Compadre Bastião, eu não tenho sofrimento prá esperar amanhã, vou agora e quando amanhecer estarei bem longe.
      Assim, saiu o Zé, caminhou noite à dentro pelos caminhos sinuosos e cheios de cascalho durante  toda  aquela noite. Sentia os pés queimando como a cabeça da Maria – sua amada. Por causa do atrito dos pés no cascalho, a poeira e a alergia, racharam-se seus pés durante aquela noite. A caminhada continuou durante o dia e a cada hora crescia um grau na temperatura, pois à medida que o Zé andava em direção ao ponto mais baixo do vale, diminuía a altitude e aumentava a temperatura. Os pés do Zé começaram a sangrar e devido ao cansaço, à caibra, os passos ficaram curtos e perderam altura. Em decorrência de tudo isso, o Zé acabou tropeçando numa pedra e arrancou a unha do dedo indicador de um dos  pés. Contudo, o Zé era cabra macho e não desistia. Aprendera com os pais que nenhum ser humano pode desistir de seu sonho. Para ele, tudo vale a pena se a alma não for mesquinha e pequena. Salvar a Maria era tudo que queria e aquele caminho era dificílimo para quem não tinha caminho, mas para ele que tinha, mesmo assim, esse caminho era um grande carinho.
       Continuou o Zé sua jornada: sede, fome, dor no corpo, dedos inchados, corpo doente e alma sarada, nutrida pelo elixir da esperança. O Zé, na sua relação com o mundo, muita coisa sabia, só não sabia reclamar, queixar ou resmungar.
       No terceiro dia à tarde, ao olhar para frente, eis que o Zé avista o rio. Nesse momento, sentiu-se renovado, correu em direção ao rio e ao chegar à margem, percebeu que o rio era enorme, parecia o Rio Amazonas.
- Meu Deus, como eu vou atravessar esse rio, se não sei nadar?
      Olhou para um lado, para outro e avistou uma moita de bambu, tomou um bambu comprido para testar a profundidade do rio. Após introduzir a sonda de bambu, percebeu que o rio era muito mais fundo que sua altura. Diante dessa situação, o Zé tomou a seguinte decisão: vou andar uns 20km ou 30 km à montante e a jusante do rio - quem sabe se encontro uma ponte ou uma pinguela para eu atravessar.
      Lamentavelmente, o Zé nada encontrou que pudesse passar, porém, avistou umas pedras que se emergiam do rio organizadas de tal forma que parecia fazer um caminho. Pulou na primeira pedra, com dificuldade passou à segunda e arrastando e contorcendo-se foi passando de pedra em pedra, tendo a sensação de que chegaria a outra margem. Ao chegar mais ou menos no meio do rio, percebeu que as pedras distanciavam-se tanto uma das outras que não era mais possível passar de uma a outra pedra, restando-lhe apenas cortes e arranhões no ventre. Nesse momento, o Zé desfaleceu, passou por um cochilo sobre a pedra onde estava e rapidamente acordou.  Sonolento, olhou para o infinito, viu ao longe no rio, lá embaixo, algo como uma garça ou um Martinho pescador voando tangente a água. Dormiu novamente e quando acordou percebeu o seu engano, não era aquilo que havia imaginado, talvez fosse algum toco de árvore perdido no rio. Traído pelo sono e pelo cansaço dormiu de novo, quando foi acordado por um barqueiro velhinho de barbas brancas.
- Oi, você está perdido, precisa de socorro?
- Sim, estou querendo passar para o outro lado do rio  e não sei nadar. È verdade que do lado de lá tem um médico, muito sábio, que cura qualquer doença?
- Sim, é verdade. Esse médico sou eu.
- Doutor, o Senhor não é um barqueiro, mas um médico enviado de Deus! Minha mulher está muito doente e se o Senhor conseguir um remédio para a cura dela dou tudo que tenho para o Senhor.
- O que ela tem?
-  Doutor, ela sente dor de cabeça, tonteira, está vomitando, a cabeça queima feito fogo, sente tremedeira e calafrios.
-  Qual o seu nome?
-  Meu nome é Zé.
- José, eu já sei a doença da sua mulher. Vamos depressa, entra no meu barco e vamos para o outro lado, em 20 min preparo o remédio para ela e no máximo em dois dias ela estará boa. Precisamos ser rápidos, então entre no barco, José.
      O Zé, com o auxílio do Médico entrou no barco, e em seguida, o Médico abaixou, tomou os remos, e nesse momento, o Zé  interrompeu o Médico, e perguntou.
- Doutor, que palavras bonitas são essas entalhadas em cada remo?
-  São palavras mágicas, Zé.
- Explica-me o significado delas?
- Não posso explicar Zé. Contudo, você me observa quando eu  remar. Antes, porém, leia bem as palavras mágicas.
      Ao que o Zé obedeceu prontamente, lendo e gravando em sua cabeça as tais palavras mágicas. Eram elas: QUERER, SABER, FAZER e finalmente, ESPERANÇA.
      O Médico tomou o remo do querer e o remou, então o barquinho girou para a direita e não saiu do lugar. Em seguida, o Médico tomou o remo do saber e o remou, o barquinho girou no sentido contrário e não saiu do lugar. O Médico repetiu a operação com os remos do fazer e da esperança e de igual modo o barco somente girou. Em seguida, com a devida cadência, o Médico remou corretamente os remos e o barco singrou rumo à outra margem com toda a segurança. Do outro lado o Médico preparou rápido o remédio que ficou pronto em menos de vinte minutos. Tomaram novamente o barco e o remaram no sentido contrário. Ao chegarem à outra margem, o Médico despediu o Zé, desejando-lhe boa viagem, ao que o Zé lhe interpelou – quanto lhe devo pagar Doutor.
- Não vai pagar nada, Zé. Somente lhe peço que me explique o significado das palavras mágicas. Se você me explicar, o remédio terá validade e vai curar sua mulher, mas se não souber, o remédio vai virar água e sua mulher morrerá; tudo depende de você. O Zé ficou perturbado e achou aquele desafio o mais duro de todos eles, suspirou fundo e falou.
- Doutor vou lhe explicar: para a gente conseguir alcançar os nossos objetivos, os nossos sonhos, temos primeiramente que querer muito. Porém, doutor, querer muito ainda é pouco e com o querer apenas, giramos, giramos e ficamos no mesmo lugar. Saber, Doutor, é muito importante, mas o saber sozinho faz com que a gente fique girando no mesmo lugar. Contudo, Doutor, se queremos, sabemos, mas não fazemos, ainda assim, ficaremos rodando no mesmo lugar. Portanto, precisamos querer remar, precisamos saber remar e precisamos remar de fato. Quando tudo isso acontece igual às cordas de um violão, então a cantiga sai e a gente caminha seguro e pode ter esperança. Para finalizar Doutor, eu aprendi que somente pode ter esperança aquele que quer, que sabe e que faz tudo direitinho na hora certa.
-Você entendeu Zé. Pode ir embora, leve o remédio para a sua amada, ela viverá e ambos hão de remar o barco e ao atravessarem o rio da vida, vocês serão pessoas realizadas e felizes, adeus.
Após dois dias e meio de viagem, o Zé chegou à sua casa e encontrou a mulher, que tanto amava tão doente quanto a deixou. Ministrou-lhe o remédio que trouxera e dois dias após a mulher ficou boa e o amou ainda mais.

Autor: Gessé Antônio de Souza: 04/02/20013

terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A rabeca mais encantadora que se viu.

    “Bem-aventuradas as criancinhas porque delas são o reino de Deus.”
                                                                                               
      Há milhares de anos e ontem – houve – e haverá sempre, como agora ainda se vê, muitas crianças e cachorrinhos encantados pela rabeca de Dom Flim-flim de la Vie.
      Que doçura de afinação, ora afina e outra hora desafina e às vezes se fina baixinho no descampado do sertão. Houve-se somente um murmúrio musical finíssimo da rabequinha, que se curva nos caminhos do grotão, às vezes, quase muda nas gargantas secas do extinto ribeirão.
       Lá vai a meninada atarantada e afagada pelo som encantador da rabeca e do bailado do rabequista pernalta, que ao arraste do vento, faz malabarismos; arregalados, arrepiantes, dançantes e estonteantes, ao dançar com o rodamoinho de vento, que o acompanha desde o nascimento.
     Vez outra, o rabequista chegou a uma vila “rabecando” – flim, flim, flim... 
     Com milhares de crianças festejando: a vida, a saúde, a felicidade, a verdade, a honestidade e a esperança; com muita euforia e alegria, caminhava o rabequista pelas trilhas primaveris que a vida lhe proporcionava, até àquela vila, cheia de flores e belezas naturais.
       O Padre, homem amante do silêncio, mandou que todos fossem embora e o Prefeito, desfeito, disse a Dom Flim-flim.  – Já que o padre o mandou embora, favor ir agora. Muito adiante, depois de um sol escaldante, entraram festejando na cidade da mesma vila, que outrora foram expulsos. Não é que o mesmo prefeito, feito maldade, novamente, os expulsa com muita ferocidade!
      Descrente, com tanta desumanidade, o rabequista se propõe a sair da cidade. Antes, porém, resolveu dar uma volta por toda a comuna percorrendo as ruas, avenidas, praças e becos, tocando a melodia mais fantástica de seu repertório musical. Flim, flim, flim...
       Crianças  de todos os lados e cachorrinho de todas as   raças e cores saíram às janelas das casas e não resistindo ao som mavioso da rabeca e aos malabarismos do rabequista, pularam todos na rua e seguiram a procissão, que era só alegria.  Velhos sisudos, senhoras grisalhas, jovens namorados -, todos esses habitantes plasmados, não entendiam nada.
        E lá se  foi rua abaixo a  criançada, até  que  o rabequista embrenhou numa trilha, que foi dar num velho túnel de trem antigo, e sem olhar para trás, penetrou túnel adentro.  As crianças e os cachorrinhos alegres e saltitantes, cantando e latindo seguiram o rabequista mágico e após atravessarem, destemidos o túnel, entraram corajosamente em um vale, chamado de esperança, e desapareceram para sempre...
        Sabe-se que, para onde foram, fundaram o país da felicidade, onde as crianças continuam criança e os cachorrinhos continuam cachorro, até os dias de hoje.
         Quanto a vila e à cidade maldita; continuam silenciosas e não se ouve, desde então, um único sorriso de menino, sequer um choro, tampouco uma breve pegada de cachorro.

Autor:  Gessé Antônio de Souza: 11/02/2016


segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Existem dois cachorros e um só cão.



          Alhures, depois do parto distócico em uma vaca preta, dei numa estrada empoeirada, lá pelas bandas das seis. O sol estava caído, minguado, enfraquecido, anêmico feito moleque de barriga de bodoque. Quando se dá com o dedo médio na barriga de menino pobre pra ver se tem timpanismo, a pele do coitado vibra como corda de berimbau. Isso é apenas uma curiosidade de doutor.
          De repente, dei conta que estava perdido, visto que a estrada que trafegava, de tão fina, parecia uma longa lombriga. Foi então, que parei em frente a uma cafua, tentando encontrar rumo. Seis meninos ou meninas - sei lá, correram para o mato. Não vi o rosto de nenhum deles, apenas contei doze pernas velozes, em frenesi.
          Afirmei para o meu auxiliar de Veterinária – que estava em dúvida-, que eram seis meninos apavorados, que estavam a esconder atrás das bananeiras. Em cafuas, tudo se faz atrás das bananeiras. O auxiliar, homem espirituoso, logo retorquiu: - Podem ser seis ou até doze, se tiverem entre eles alguns sacis.
          O maldito auxiliar sempre me trazia a malvada dúvida. Naquele dia mesmo, tive que abrir a vaca duas vezes, considerando que o maldito havia dito que larguei uma pinça, dente de rato, na barriga da Preta. Para meu gosto ou desgosto, não é que o danado tinha razão!
           Vamos ao que interessa; batemos palma, gritamos – ô de casa, ô de casa, até que apareceu uma velha engelhada que parecia ter cento e dez anos, que disse:  - Não atormente o meu juízo, que tô de lua de mé.
          Meu auxiliar, muito ladino que era; não se sabe o que deu na cabeça dele, chicoteou com o dedo médio no barrigão da mulher e disse: - Não é menino não doutor, tem som de berimbau, tá que é verme puro, ao que respondi: - Ascaris lumbricóides, Necator americanos, Ancylostoma sp e outros “bichitos” mais. A mulher, irada, estumou o cachorrinho magricela, que estava escoltando a gente, e logo saiu dos fundos do casebre uma matilha de outros cães, ainda mais magros, demonstrando que eram portadores assintomáticos de leishmaniose.
           Entramos aos tropéis na picape perseguidos pela matilha, que mais fazia poeira que latia.
           Meu auxiliar era negro, e o danado do magricelo – cachorro fedorento, só corria atrás do meu auxiliar, até que arrancou dele um bornal que continha todas as nossas cordas de contenção de animais, antes que o mesmo adentrasse na caminhonete.
          O certo é que fomos embora, sem nunca saber se era fato a tal lua de mel da velhinha, que era idosa - não pela idade, mas pelo abandono e maus tratos a que são submetidos muitos camponeses abandonados.
           Dia perdido aquele, parece que nada queria dar certo. Então, aceleramos a picape e zarpamos, mesmo sem rumo certo. Não é que a cachorrada correu atrás da caminhonete e o fedorento esquálido correu feito atleta, ao lado do carona, latindo feito danado, até desaparecer no retrovisor, perdido num canudo de poeira!
           Aliviados, chegamos a uma fazenda, logo ao anoitecer, e agora outra matilha nos atacou e eram cachorros mais robustos. Uns dois queriam me atacar, porém, quatro ou cinco partiram para cima do meu auxiliar. Não tendo alternativa, entramos correndo na picape, quando vi um cachorro carregando, nos dentes, um pedaço da  calça do meu auxiliar.
         Muitas peripécias aconteceram, até que achamos o caminho de volta. Não vamos enumerá-las aqui, porque senão o leitor não terá energia suficiente para ler o resto da crônica.
         Somente lá pelas duas horas da madrugada chegamos a nossa casa, depois de enfrentarmos muita poeira, lama e beber gasolina. Esse negócio de puxar gasolina pela boca para acabar com pane seca de carro é a maior desgraça de um pobre coitado. Pior que isso, é ter que dar explicações à Patroa, que já dormiu e acordou pela décima vez durante a malfadada noite. Quem consegue, a essas alturas, convencer a mulher que tais acontecimentos são peripécias da profissão?
         O certo é que não dormi mais e peguei numa reflexão madrugada adentro. Juntei umas peças do passado profissional – passado serve para isso, refazer o presente. Lá pelas cinco horas da manhã fechei meu raciocínio. Talvez o meu raciocínio desse uma tese de mestrado, ou melhor, uma de mestrado e outra de doutorado, para o  coroamento de todo aquele sofrimento.
         Confesso que outra reflexão veio e a explicito, em breve. O que me ocorreu como hipótese, é tão óbvio que não requer qualquer tipo de demonstração. É coisa, assim, como provar que: 2+2 = 4, 0/x = 0, e que x/0 = ?
         Foi então, que perdi o entusiasmo e percebi que essa tese não dava; nem tese, nem tesinha, nem tesão.
         Vou contar agora o que constatei pela metodologia empírica e observação aguçada de um veterinário que andou muito pelas fazendas afora – que vivemos em um mundo de cão, assim divididos: Cão da casa grande e o cão da senzala.
         O cão da casa grande era adestrado para atacar os pobres, que coincidentemente eram negros e mulatos da senzala. Havia, portanto, uma seleção artificial de cães com base em um conjunto de características zootécnicas que interessavam à Casa Grande, a saber: cão de raça boa é aquele que; come carne, é grande, mija alto – se macho, late grosso (grave), ataca preto e moleque de senzala. Por outro lado, cão de senzala é aquele que come preferencialmente angu, é pequeno, anda de rabo baixo, come carniça, come pouco, não briga com cão da casa grande, late fino (agudo) e jamais morde em menino de Sinhô.
        Finalmente, vou revelar o que observei como veterinário e psicólogo de cachorro: que até hoje existem psiquismos ancestrais alojados na cabeça dos cães de fazenda, que fazem com que os danados reconheçam pelo cheiro ou pela cor a quem devam atacar, e por isso, atacam preferencialmente pobres e pretos a ricos e brancos. Nem Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala, observou tão sutil discriminação. Meu Deus, que tamanha cachorrada! Até os cachorros da casa grande aprenderam a discriminar, tornando-se hábeis pecadores por causa dos homens. Por isso, penso que, nesse mundo, exista um só cão – e esse danado.
         Finalmente, esses tipos de cães, até onde se pode observar estão diminuindo nos campos. Porém, se veem outros cães, ainda mais perigosos prosperando e ameaçando; não mais as fazendas, mas as cidades, que também estão divididas em casa grande e senzala, para o horror de todos e para a desgraça da civilização moderna.  Não faz muito tempo, quando fui ao Rio de Janeiro e subi ao Pão de Açúcar pude ver nitidamente a casa grande e a senzala – dois brasis em apartheid, naquela metrópole. Foi lá, desse mirante, que lancei um olhar panorâmico por todo o Brasil e vi muitas casas grandes e senzalas espalhadas por todo o território brasileiro.
          Por isso, se observa, sem lupa: que nas cidades há homens em locais estratégicos, às vezes aquartelados, vigiando a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, e esses são semelhantes aos cães da casa grande, evidentemente a serviço dos novos senhores e a cumprir a missão sagrada de manter, à custa do suor da senzala, a ordem (ou desordem) social, que tanto interessa à Casa Grande.
                                                                                    
                                                                                      Gessé Antônio de Souza.   08/01/2016