sexta-feira, 5 de fevereiro de 2016

A árvore que dava amor

A árvore que dava amor

        Nem muito distante, nem muito perto do sol girava um planeta de forma quase redonda, como todos os planetas que giram em torno de qualquer estrela. Esse negócio de girar, mesmo que seja no ar, faz tudo redondo, como se fosse uma engrenagem complexa de um grande motor. Se, se está girando, em algum lugar que não seja no vácuo, mais cedo ou mais tarde, após um tempo geológico – lógico, terá que se arredondar.
       Nesse planeta, quase redondo, moravam seres humanoides – entre outros – quase quadrados e mui irregulares, que se trombavam o tempo todo, se feriam, se machucavam, até que os líquidos vitais de muitos se esvaíssem, muitos sofrimentos desnecessários eram vividos. Como elaborar conceitos era muito trabalhoso, o que mais rolava, entre os humanoides, era o preconceito, inveja, medo, ciúme, desconfiança, alienação. Perceber e relacionar-se com a verdade era muito difícil, e por isso, multiplicavam-se os mitos. Embora, os habitantes mais avançados buscassem a verdade, sempre a confundiam com fantasia e a vida cotidiana parecia mais circo que realidade, não obstante, a maioria entender exatamente o contrário, isto é, que havia mais realidade que circo.
        As guerras, separações, ódios e rancores eram decorrentes das crenças circenses, porque não sabiam, até então, separar uma e outra coisa – a realidade da fantasia, visto que, o pensamento mágico era muito valorizado. Por outro lado, os habitantes eram religiosos, conquanto as religiões confirmassem os mitos e fantasias tramados ao longo da história, sobretudo pelo grupo dominante. Por isso, a religiosidade que deveria lubrificar as relações entre os humanoides, causava ainda mais atrito.
       A vida seguiu por séculos assim e quem, por ventura, aventasse a possibilidade de mudança, geralmente era sacrificado em nome de deus ou da ordem política, quiçá para a honra de ambos.
       Nos últimos tempos, porém, aconteceu um fato inédito, cujo protagonista foi uma peça eletrônica a que chamaram de celular, que era de fato uma cela. Essa peça parece que puxou o cérebro para os dedos e os humanoides não pensavam mais. Deambulavam pelas ruas, trombavam nos postes, caiam nos riachos e pisavam em cima de espinhos e animais peçonhentos sem nada perceberem. Os humanoides, em celular, se tornaram ainda mais agressivos, fofoqueiros, brigões, maledicentes, isso porque perderam as habilidades sociais e psíquicas ancestrais, considerando que, há milhares de anos eles se relacionavam corpo a corpo, olho no olho, boca no ouvido e ouvido na boca, e agora, por causa do celular, tudo é à distância, mesmo não havendo distância. As doenças psiquiátricas, nesse planeta, enquanto cresciam em progressão geométrica, eram reivindicadas como de autoria dos celulares, que cresciam em progressão aritmética.
        Um dia, me contaram e ainda bem não sei se é um sonho, mito ou fantasia ou se é força do destino ou cinética das peças que compõem os movimentos do planeta onde moram esses estranhos humanoides –, que houve uma mudança brusca e esses humanoides sofreram um rápido arredondamento e as relações entre eles se tornaram mais humanas, menos celulares e mais silenciosas.
       Tudo começou em uma floresta, não obstante esses humanoides acharem que as florestas não eram importantes, quando um menino; encantado e puxado pela grimpa esverdeada de uma montanha, a resolve escalar.
     Coroando a grimpa, se via uma grinalda de névoa úmida, que descia lateralmente a montanha, transformando-se em chuviscos, que ao sol, pareciam raios de prata nas mãos de um grande artesão. O menino, fazendo zigue-zague, empina a montanha e a cada grau de altitude, o menino cantava repetidamente: Ontem um coleguinha com quem brincava me falou, que hoje é sempre semente do amanhã. Por isso, o menino subia sem se desesperar e nem mesmo parou um só momento de sonhar, porque do céu se ouvia: - Não se entregue, suba sempre às manhãs.
         Foi subindo às manhãs que  o menino  um dia encontrou uma árvore que dava frutas de amor. Ao comer os frutos, o menino foi tomado de amor e amou ainda mais. Foi então que o menino ou o amor tomou alguns fios de cipó e teceu uma cesta que se encheu de frutas de amor. Como água que desce da montanha para regar os campos e as plantações, desce nas mãos do guri o cesto de amor e muitos da rua onde o menino morava e os da casa comeram da fruta do amor.
          Foi tão grande a mudança, que  até  os celulares  ficaram abandonados. Todos da cidade queriam saber onde comprar os frutos do amor. Foi aí que o menino falou:  – Vamos, olhe para cima e para frente, porque juntos subiremos a montanha, e lá encontraremos a árvore da vida, carregada com frutas do amor.
             Nunca  se viu tanta coragem  e  todo  o  povo da  cidade  subiu  a  montanha  e se fartaram com os frutos de amor. O planeta todo tomou conhecimento e todos se dirigiram para o monte, comeram da árvore da vida, da árvore que era só amor.
            Após a descoberta, nunca mais aquele planeta foi o mesmo e o amor era amor em todos os lugares e em todas as pessoas, por isso, todos tinham tudo e ninguém precisava de mais nada, porque o amor é tudo.
       Assim, em cada vida e em cada planeta o amor brilha, porque no alto vive e a todos pode iluminar.                                                   

Gessé Antônio de Souza: 03/01/2016.

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