“Bem-aventuradas
as criancinhas porque delas são o reino de Deus.”
Há milhares de anos e ontem – houve – e haverá
sempre, como agora ainda se vê, muitas crianças e cachorrinhos encantados pela
rabeca de Dom Flim-flim de la Vie.
Que
doçura de afinação, ora afina e outra hora desafina e às vezes se fina baixinho
no descampado do sertão. Houve-se somente um murmúrio musical finíssimo da rabequinha,
que se curva nos caminhos do grotão, às vezes, quase muda nas gargantas secas
do extinto ribeirão.
Lá vai
a meninada atarantada e afagada pelo som encantador da rabeca e do bailado do
rabequista pernalta, que ao arraste do vento, faz malabarismos; arregalados,
arrepiantes, dançantes e estonteantes, ao dançar com o rodamoinho de vento, que
o acompanha desde o nascimento.
Vez
outra, o rabequista chegou a uma vila “rabecando” – flim, flim, flim...
Com
milhares de crianças festejando: a vida, a saúde, a felicidade, a verdade, a
honestidade e a esperança; com muita euforia e alegria, caminhava o rabequista
pelas trilhas primaveris que a vida lhe proporcionava, até àquela vila, cheia de
flores e belezas naturais.
O Padre,
homem amante do silêncio, mandou que todos fossem embora e o Prefeito, desfeito,
disse a Dom Flim-flim. – Já que o padre
o mandou embora, favor ir agora. Muito adiante, depois de um sol escaldante,
entraram festejando na cidade da mesma vila, que outrora foram expulsos. Não é
que o mesmo prefeito, feito maldade, novamente, os expulsa com muita
ferocidade!
Descrente,
com tanta desumanidade, o rabequista se propõe a sair da cidade. Antes, porém,
resolveu dar uma volta por toda a comuna percorrendo as ruas, avenidas, praças
e becos, tocando a melodia mais fantástica de seu repertório musical. Flim,
flim, flim...
Crianças de todos os lados e cachorrinho de todas as raças e cores saíram às janelas
das casas e não resistindo ao som mavioso da rabeca e aos malabarismos do rabequista,
pularam todos na rua e seguiram a procissão, que era só alegria. Velhos sisudos, senhoras grisalhas, jovens
namorados -, todos esses habitantes plasmados, não entendiam nada.
E lá se foi rua abaixo a criançada, até que o rabequista embrenhou numa trilha, que foi
dar num velho túnel de trem antigo, e sem olhar para trás, penetrou túnel
adentro. As crianças e os cachorrinhos
alegres e saltitantes, cantando e latindo seguiram o rabequista mágico e após
atravessarem, destemidos o túnel, entraram corajosamente em um vale, chamado de
esperança, e desapareceram para sempre...
Sabe-se que, para onde foram, fundaram o país da felicidade, onde as
crianças continuam criança e os cachorrinhos continuam cachorro, até os dias de
hoje.
Quanto a vila e à cidade maldita; continuam silenciosas e não se ouve, desde então, um
único sorriso de menino, sequer um choro, tampouco uma breve pegada de cachorro.
Autor: Gessé Antônio de Souza: 11/02/2016

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