terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

A rabeca mais encantadora que se viu.

    “Bem-aventuradas as criancinhas porque delas são o reino de Deus.”
                                                                                               
      Há milhares de anos e ontem – houve – e haverá sempre, como agora ainda se vê, muitas crianças e cachorrinhos encantados pela rabeca de Dom Flim-flim de la Vie.
      Que doçura de afinação, ora afina e outra hora desafina e às vezes se fina baixinho no descampado do sertão. Houve-se somente um murmúrio musical finíssimo da rabequinha, que se curva nos caminhos do grotão, às vezes, quase muda nas gargantas secas do extinto ribeirão.
       Lá vai a meninada atarantada e afagada pelo som encantador da rabeca e do bailado do rabequista pernalta, que ao arraste do vento, faz malabarismos; arregalados, arrepiantes, dançantes e estonteantes, ao dançar com o rodamoinho de vento, que o acompanha desde o nascimento.
     Vez outra, o rabequista chegou a uma vila “rabecando” – flim, flim, flim... 
     Com milhares de crianças festejando: a vida, a saúde, a felicidade, a verdade, a honestidade e a esperança; com muita euforia e alegria, caminhava o rabequista pelas trilhas primaveris que a vida lhe proporcionava, até àquela vila, cheia de flores e belezas naturais.
       O Padre, homem amante do silêncio, mandou que todos fossem embora e o Prefeito, desfeito, disse a Dom Flim-flim.  – Já que o padre o mandou embora, favor ir agora. Muito adiante, depois de um sol escaldante, entraram festejando na cidade da mesma vila, que outrora foram expulsos. Não é que o mesmo prefeito, feito maldade, novamente, os expulsa com muita ferocidade!
      Descrente, com tanta desumanidade, o rabequista se propõe a sair da cidade. Antes, porém, resolveu dar uma volta por toda a comuna percorrendo as ruas, avenidas, praças e becos, tocando a melodia mais fantástica de seu repertório musical. Flim, flim, flim...
       Crianças  de todos os lados e cachorrinho de todas as   raças e cores saíram às janelas das casas e não resistindo ao som mavioso da rabeca e aos malabarismos do rabequista, pularam todos na rua e seguiram a procissão, que era só alegria.  Velhos sisudos, senhoras grisalhas, jovens namorados -, todos esses habitantes plasmados, não entendiam nada.
        E lá se  foi rua abaixo a  criançada, até  que  o rabequista embrenhou numa trilha, que foi dar num velho túnel de trem antigo, e sem olhar para trás, penetrou túnel adentro.  As crianças e os cachorrinhos alegres e saltitantes, cantando e latindo seguiram o rabequista mágico e após atravessarem, destemidos o túnel, entraram corajosamente em um vale, chamado de esperança, e desapareceram para sempre...
        Sabe-se que, para onde foram, fundaram o país da felicidade, onde as crianças continuam criança e os cachorrinhos continuam cachorro, até os dias de hoje.
         Quanto a vila e à cidade maldita; continuam silenciosas e não se ouve, desde então, um único sorriso de menino, sequer um choro, tampouco uma breve pegada de cachorro.

Autor:  Gessé Antônio de Souza: 11/02/2016


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