Alhures,
depois do parto distócico em uma vaca preta, dei numa estrada empoeirada, lá
pelas bandas das seis. O sol estava caído, minguado, enfraquecido, anêmico
feito moleque de barriga de bodoque. Quando se dá com o dedo médio na barriga
de menino pobre pra ver se tem timpanismo, a pele do coitado vibra como corda
de berimbau. Isso é apenas uma curiosidade de doutor.
De repente,
dei conta que estava perdido, visto que a estrada que trafegava, de tão fina,
parecia uma longa lombriga. Foi então, que parei em frente a uma cafua,
tentando encontrar rumo. Seis meninos ou meninas - sei lá, correram para o
mato. Não vi o rosto de nenhum deles, apenas contei doze pernas velozes, em
frenesi.
Afirmei para
o meu auxiliar de Veterinária – que estava em dúvida-, que eram seis meninos
apavorados, que estavam a esconder atrás das bananeiras. Em cafuas, tudo se faz
atrás das bananeiras. O auxiliar, homem espirituoso, logo retorquiu: - Podem
ser seis ou até doze, se tiverem entre eles alguns sacis.
O maldito
auxiliar sempre me trazia a malvada dúvida. Naquele dia mesmo, tive que abrir a
vaca duas vezes, considerando que o maldito havia dito que larguei uma pinça,
dente de rato, na barriga da Preta. Para meu gosto ou desgosto, não é que o
danado tinha razão!
Vamos ao que
interessa; batemos palma, gritamos – ô de casa, ô de casa, até que apareceu uma
velha engelhada que parecia ter cento e dez anos, que disse: - Não atormente o meu juízo, que tô de lua de
mé.
Meu auxiliar,
muito ladino que era; não se sabe o que deu na cabeça dele, chicoteou com o
dedo médio no barrigão da mulher e disse: - Não é menino não doutor, tem som de
berimbau, tá que é verme puro, ao que respondi: - Ascaris lumbricóides, Necator americanos, Ancylostoma sp e outros
“bichitos” mais. A mulher, irada, estumou o cachorrinho magricela, que estava
escoltando a gente, e logo saiu dos fundos do casebre uma matilha de outros
cães, ainda mais magros, demonstrando que eram portadores assintomáticos de
leishmaniose.
Entramos aos tropéis na picape perseguidos
pela matilha, que mais fazia poeira que latia.
Meu auxiliar era negro, e o danado
do magricelo – cachorro fedorento, só corria atrás do meu auxiliar, até que
arrancou dele um bornal que continha todas as nossas cordas de contenção de
animais, antes que o mesmo adentrasse na caminhonete.
O certo é que fomos embora, sem nunca
saber se era fato a tal lua de mel da velhinha, que era idosa - não pela idade,
mas pelo abandono e maus tratos a que são submetidos muitos camponeses abandonados.
Dia perdido aquele, parece que nada
queria dar certo. Então, aceleramos a picape e zarpamos, mesmo sem rumo certo.
Não é que a cachorrada correu atrás da caminhonete e o fedorento esquálido
correu feito atleta, ao lado do carona, latindo feito danado, até desaparecer
no retrovisor, perdido num canudo de poeira!
Aliviados, chegamos a uma fazenda,
logo ao anoitecer, e agora outra matilha nos atacou e eram cachorros mais
robustos. Uns dois queriam me atacar, porém, quatro ou cinco partiram para cima
do meu auxiliar. Não tendo alternativa, entramos correndo na picape, quando vi
um cachorro carregando, nos dentes, um pedaço da calça do meu auxiliar.
Muitas peripécias aconteceram, até que
achamos o caminho de volta. Não vamos enumerá-las aqui, porque senão o leitor
não terá energia suficiente para ler o resto da crônica.
Somente lá pelas duas horas da
madrugada chegamos a nossa casa, depois de enfrentarmos muita poeira, lama e
beber gasolina. Esse negócio de puxar gasolina pela boca para acabar com pane
seca de carro é a maior desgraça de um pobre coitado. Pior que isso, é ter que
dar explicações à Patroa, que já dormiu e acordou pela décima vez durante a
malfadada noite. Quem consegue, a essas alturas, convencer a mulher que tais
acontecimentos são peripécias da profissão?
O certo é que não dormi mais e peguei
numa reflexão madrugada adentro. Juntei umas peças do passado profissional –
passado serve para isso, refazer o presente. Lá pelas cinco horas da manhã
fechei meu raciocínio. Talvez o meu raciocínio desse uma tese de mestrado, ou
melhor, uma de mestrado e outra de doutorado, para o coroamento de todo aquele sofrimento.
Confesso que outra reflexão veio e a
explicito, em breve. O que me ocorreu como hipótese, é tão óbvio que não requer
qualquer tipo de demonstração. É coisa, assim, como provar que: 2+2 = 4, 0/x =
0, e que x/0 = ?
Foi então, que perdi o entusiasmo e
percebi que essa tese não dava; nem tese, nem tesinha, nem tesão.
Vou contar agora o que constatei pela metodologia empírica e observação
aguçada de um veterinário que andou muito pelas fazendas afora – que vivemos em
um mundo de cão, assim divididos: Cão da casa grande e o cão da senzala.
O cão da casa grande era adestrado para
atacar os pobres, que coincidentemente eram negros e mulatos da senzala. Havia,
portanto, uma seleção artificial de cães com base em um conjunto de
características zootécnicas que interessavam à Casa Grande, a saber: cão de
raça boa é aquele que; come carne, é grande, mija alto – se macho, late grosso
(grave), ataca preto e moleque de senzala. Por outro lado, cão de senzala é
aquele que come preferencialmente angu, é pequeno, anda de rabo baixo, come
carniça, come pouco, não briga com cão da casa grande, late fino (agudo) e
jamais morde em menino de Sinhô.
Finalmente, vou revelar o que observei
como veterinário e psicólogo de cachorro: que até hoje existem psiquismos
ancestrais alojados na cabeça dos cães de fazenda, que fazem com que os danados
reconheçam pelo cheiro ou pela cor a quem devam atacar, e por isso, atacam
preferencialmente pobres e pretos a ricos e brancos. Nem Gilberto Freire, em
Casa Grande e Senzala, observou tão sutil discriminação. Meu Deus, que tamanha
cachorrada! Até os cachorros da casa grande aprenderam a discriminar,
tornando-se hábeis pecadores por causa dos homens. Por isso, penso que, nesse
mundo, exista um só cão – e esse danado.
Finalmente, esses tipos de cães, até
onde se pode observar estão diminuindo nos campos. Porém, se veem outros cães,
ainda mais perigosos prosperando e ameaçando; não mais as fazendas, mas as
cidades, que também estão divididas em casa grande e senzala, para o horror de
todos e para a desgraça da civilização moderna. Não faz muito tempo, quando fui ao Rio de
Janeiro e subi ao Pão de Açúcar pude ver nitidamente a casa grande e a senzala
– dois brasis em apartheid, naquela metrópole. Foi lá, desse mirante, que
lancei um olhar panorâmico por todo o Brasil e vi muitas casas grandes e
senzalas espalhadas por todo o território brasileiro.
Por isso, se observa, sem lupa: que nas
cidades há homens em locais estratégicos, às vezes aquartelados, vigiando a
riqueza de poucos e a pobreza de muitos, e esses são semelhantes aos cães da
casa grande, evidentemente a serviço dos novos senhores e a cumprir a missão
sagrada de manter, à custa do suor da senzala, a ordem (ou desordem) social,
que tanto interessa à Casa Grande.
Gessé Antônio de
Souza. 08/01/2016
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