segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Existem dois cachorros e um só cão.



          Alhures, depois do parto distócico em uma vaca preta, dei numa estrada empoeirada, lá pelas bandas das seis. O sol estava caído, minguado, enfraquecido, anêmico feito moleque de barriga de bodoque. Quando se dá com o dedo médio na barriga de menino pobre pra ver se tem timpanismo, a pele do coitado vibra como corda de berimbau. Isso é apenas uma curiosidade de doutor.
          De repente, dei conta que estava perdido, visto que a estrada que trafegava, de tão fina, parecia uma longa lombriga. Foi então, que parei em frente a uma cafua, tentando encontrar rumo. Seis meninos ou meninas - sei lá, correram para o mato. Não vi o rosto de nenhum deles, apenas contei doze pernas velozes, em frenesi.
          Afirmei para o meu auxiliar de Veterinária – que estava em dúvida-, que eram seis meninos apavorados, que estavam a esconder atrás das bananeiras. Em cafuas, tudo se faz atrás das bananeiras. O auxiliar, homem espirituoso, logo retorquiu: - Podem ser seis ou até doze, se tiverem entre eles alguns sacis.
          O maldito auxiliar sempre me trazia a malvada dúvida. Naquele dia mesmo, tive que abrir a vaca duas vezes, considerando que o maldito havia dito que larguei uma pinça, dente de rato, na barriga da Preta. Para meu gosto ou desgosto, não é que o danado tinha razão!
           Vamos ao que interessa; batemos palma, gritamos – ô de casa, ô de casa, até que apareceu uma velha engelhada que parecia ter cento e dez anos, que disse:  - Não atormente o meu juízo, que tô de lua de mé.
          Meu auxiliar, muito ladino que era; não se sabe o que deu na cabeça dele, chicoteou com o dedo médio no barrigão da mulher e disse: - Não é menino não doutor, tem som de berimbau, tá que é verme puro, ao que respondi: - Ascaris lumbricóides, Necator americanos, Ancylostoma sp e outros “bichitos” mais. A mulher, irada, estumou o cachorrinho magricela, que estava escoltando a gente, e logo saiu dos fundos do casebre uma matilha de outros cães, ainda mais magros, demonstrando que eram portadores assintomáticos de leishmaniose.
           Entramos aos tropéis na picape perseguidos pela matilha, que mais fazia poeira que latia.
           Meu auxiliar era negro, e o danado do magricelo – cachorro fedorento, só corria atrás do meu auxiliar, até que arrancou dele um bornal que continha todas as nossas cordas de contenção de animais, antes que o mesmo adentrasse na caminhonete.
          O certo é que fomos embora, sem nunca saber se era fato a tal lua de mel da velhinha, que era idosa - não pela idade, mas pelo abandono e maus tratos a que são submetidos muitos camponeses abandonados.
           Dia perdido aquele, parece que nada queria dar certo. Então, aceleramos a picape e zarpamos, mesmo sem rumo certo. Não é que a cachorrada correu atrás da caminhonete e o fedorento esquálido correu feito atleta, ao lado do carona, latindo feito danado, até desaparecer no retrovisor, perdido num canudo de poeira!
           Aliviados, chegamos a uma fazenda, logo ao anoitecer, e agora outra matilha nos atacou e eram cachorros mais robustos. Uns dois queriam me atacar, porém, quatro ou cinco partiram para cima do meu auxiliar. Não tendo alternativa, entramos correndo na picape, quando vi um cachorro carregando, nos dentes, um pedaço da  calça do meu auxiliar.
         Muitas peripécias aconteceram, até que achamos o caminho de volta. Não vamos enumerá-las aqui, porque senão o leitor não terá energia suficiente para ler o resto da crônica.
         Somente lá pelas duas horas da madrugada chegamos a nossa casa, depois de enfrentarmos muita poeira, lama e beber gasolina. Esse negócio de puxar gasolina pela boca para acabar com pane seca de carro é a maior desgraça de um pobre coitado. Pior que isso, é ter que dar explicações à Patroa, que já dormiu e acordou pela décima vez durante a malfadada noite. Quem consegue, a essas alturas, convencer a mulher que tais acontecimentos são peripécias da profissão?
         O certo é que não dormi mais e peguei numa reflexão madrugada adentro. Juntei umas peças do passado profissional – passado serve para isso, refazer o presente. Lá pelas cinco horas da manhã fechei meu raciocínio. Talvez o meu raciocínio desse uma tese de mestrado, ou melhor, uma de mestrado e outra de doutorado, para o  coroamento de todo aquele sofrimento.
         Confesso que outra reflexão veio e a explicito, em breve. O que me ocorreu como hipótese, é tão óbvio que não requer qualquer tipo de demonstração. É coisa, assim, como provar que: 2+2 = 4, 0/x = 0, e que x/0 = ?
         Foi então, que perdi o entusiasmo e percebi que essa tese não dava; nem tese, nem tesinha, nem tesão.
         Vou contar agora o que constatei pela metodologia empírica e observação aguçada de um veterinário que andou muito pelas fazendas afora – que vivemos em um mundo de cão, assim divididos: Cão da casa grande e o cão da senzala.
         O cão da casa grande era adestrado para atacar os pobres, que coincidentemente eram negros e mulatos da senzala. Havia, portanto, uma seleção artificial de cães com base em um conjunto de características zootécnicas que interessavam à Casa Grande, a saber: cão de raça boa é aquele que; come carne, é grande, mija alto – se macho, late grosso (grave), ataca preto e moleque de senzala. Por outro lado, cão de senzala é aquele que come preferencialmente angu, é pequeno, anda de rabo baixo, come carniça, come pouco, não briga com cão da casa grande, late fino (agudo) e jamais morde em menino de Sinhô.
        Finalmente, vou revelar o que observei como veterinário e psicólogo de cachorro: que até hoje existem psiquismos ancestrais alojados na cabeça dos cães de fazenda, que fazem com que os danados reconheçam pelo cheiro ou pela cor a quem devam atacar, e por isso, atacam preferencialmente pobres e pretos a ricos e brancos. Nem Gilberto Freire, em Casa Grande e Senzala, observou tão sutil discriminação. Meu Deus, que tamanha cachorrada! Até os cachorros da casa grande aprenderam a discriminar, tornando-se hábeis pecadores por causa dos homens. Por isso, penso que, nesse mundo, exista um só cão – e esse danado.
         Finalmente, esses tipos de cães, até onde se pode observar estão diminuindo nos campos. Porém, se veem outros cães, ainda mais perigosos prosperando e ameaçando; não mais as fazendas, mas as cidades, que também estão divididas em casa grande e senzala, para o horror de todos e para a desgraça da civilização moderna.  Não faz muito tempo, quando fui ao Rio de Janeiro e subi ao Pão de Açúcar pude ver nitidamente a casa grande e a senzala – dois brasis em apartheid, naquela metrópole. Foi lá, desse mirante, que lancei um olhar panorâmico por todo o Brasil e vi muitas casas grandes e senzalas espalhadas por todo o território brasileiro.
          Por isso, se observa, sem lupa: que nas cidades há homens em locais estratégicos, às vezes aquartelados, vigiando a riqueza de poucos e a pobreza de muitos, e esses são semelhantes aos cães da casa grande, evidentemente a serviço dos novos senhores e a cumprir a missão sagrada de manter, à custa do suor da senzala, a ordem (ou desordem) social, que tanto interessa à Casa Grande.
                                                                                    
                                                                                      Gessé Antônio de Souza.   08/01/2016

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