O
Zé era um homem muito dedicado, amava a sua esposa profundamente e sempre
entendia que daria a vida para salvá-la de qualquer situação que a colocasse em
perigo.
Certo dia, Maria, a esposa do Zé, caiu
enferma. Sentia calafrios, dor de cabeça, queimava de febre, vomitava e não
aguentando mais, se acamou. O coitado do Zé, ficou muito triste, fez todos os
chás da Vovó: Camomila, Macaé, Boldo, Saião, Confrei ... e nada da Maria melhorar. O Zé, então, foi a
um botequim e comprou: Novalgina, Aspirina, AAS, Melhoral e foi dando tudo à
Maria, conforme o Boticário lhe indicara. Maria, quanto mais remédio tomava
mais doente ficava.
O Zé, à cabeceira, deixou derramar rosto
abaixo uma lágrima de dor e outra de profunda angústia acompanhada de decepção.
Nesse ínterim, olhou perdido - através da janela semi-aberta, para a pequena rua onde morava, quando à sua
frente passava o compadre Bastião aos tropéis pela calçada.
- Bastião, me socorre, sua
cumade Maria está fazendo termo e precisa de sua ajuda.
Ocorre que o Sr. Sebastião
trabalhou em algumas farmácias, no Rio de Janeiro, e por ali se dizia que o
Bastião era que nem doutor.
- Oi, Zé. O que aconteceu com a
cumade Maria?
- Tá muito doente, cumpade.
- Vou aí vê Ela, disse o Sebastião.
O Sr. Sebastião entrou e foi
direto para o quarto da moribunda. Em seguida, com ares de doutor, colocou a
mão na testa da doente e sentiu a mão pegar fogo de febre. Observou o corpo
caquético, a tez abundante que cobria aquele corpo carente, sobrava pele e
faltava corpo naquele quarto sofrido.
- Pelo visto Zé, o caso da
cumade Maria é grave e você vai ter que procurar um doutor.
- Mas você não é doutor,
Bastião.
- Sou doutor, Zé, mas não para
esse caso complicado.
- Mas Bastião, você sabe que aqui
na Vila não existe médico, nem farmácia boa, isso aqui é um cafundó do Juda.
- Zé, num brinca comigo, você
não dá a vida prá salvar a cumade Maria?
- Dou, Bastião, prefiro morrer
no lugar dela.
- Então vou lhe dá um conselho.
Tá vendo aquele trilho que sobe naquela calha entre as duas montanhas, bem ali,
à sua frente?
-Tô vendo, Bastião, me diga logo
o que tem lá!
- Zé, lá não tem nada, nada mais
é que um caminho escarposo, pedregoso, difícil de passar, mas se você seguir
por ele e caminhar uns três dias mais ou menos, você encontrará um doutor
especial que vai curar a sua patroa, minha distinta cumade.
- Sua expricação é pouca,
Bastião!
- Calma, Zé, você está
afadigado, vou lhe explicar melhor.
- Olha, caminha uns três dias e
se andar bem, então ao cabo do terceiro dia você vai olhar para frente e vai
ver um rio. Visto o rio, é só você atravessar para o outro lado. Atravessou;
então você arriba a cabeça, olha prá frente como quem tá olhando prum boi no
roçado. Você vai ver uma casa, mais ou menos um tiro de espingarda prá sua
frente. Se você olhar bem, vai ver uma varanda e nela vai observar um velhinho
de barbas brancas parecido com Papai
Noel. Ele vai tá lendo um livro. Esse homem é um sábio e nunca houve na terra
quem o procurasse com doença braba que não curasse com umas poucas garrafadas.
Então, Zé, como já anoiteceu saia amanhã de madrugada.
- Compadre Bastião, eu não tenho
sofrimento prá esperar amanhã, vou agora e quando amanhecer estarei bem longe.
Assim, saiu o Zé, caminhou noite à dentro
pelos caminhos sinuosos e cheios de cascalho durante toda
aquela noite. Sentia os pés queimando como a cabeça da Maria – sua
amada. Por causa do atrito dos pés no cascalho, a poeira e a alergia,
racharam-se seus pés durante aquela noite. A caminhada continuou durante o dia
e a cada hora crescia um grau na temperatura, pois à medida que o Zé andava em
direção ao ponto mais baixo do vale, diminuía a altitude e aumentava a
temperatura. Os pés do Zé começaram a sangrar e devido ao cansaço, à caibra, os
passos ficaram curtos e perderam altura. Em decorrência de tudo isso, o Zé
acabou tropeçando numa pedra e arrancou a unha do dedo indicador de um dos pés. Contudo, o Zé era cabra macho e não
desistia. Aprendera com os pais que nenhum ser humano pode desistir de seu
sonho. Para ele, tudo vale a pena se a alma não for mesquinha e pequena. Salvar
a Maria era tudo que queria e aquele caminho era dificílimo para quem não tinha
caminho, mas para ele que tinha, mesmo assim, esse caminho era um grande
carinho.
Continuou o Zé sua jornada: sede, fome,
dor no corpo, dedos inchados, corpo doente e alma sarada, nutrida pelo elixir
da esperança. O Zé, na sua relação com o mundo, muita coisa sabia, só não sabia
reclamar, queixar ou resmungar.
No terceiro dia à tarde, ao olhar para
frente, eis que o Zé avista o rio. Nesse momento, sentiu-se renovado, correu em
direção ao rio e ao chegar à margem, percebeu que o rio era enorme, parecia o
Rio Amazonas.
- Meu Deus, como eu vou
atravessar esse rio, se não sei nadar?
Olhou para um lado, para outro e avistou uma
moita de bambu, tomou um bambu comprido para testar a profundidade do rio. Após
introduzir a sonda de bambu, percebeu que o rio era muito mais fundo que sua
altura. Diante dessa situação, o Zé tomou a seguinte decisão: vou andar uns 20km
ou 30 km à montante e a jusante do rio - quem sabe se encontro uma ponte ou uma
pinguela para eu atravessar.
Lamentavelmente, o Zé nada encontrou que
pudesse passar, porém, avistou umas pedras que se emergiam do rio organizadas
de tal forma que parecia fazer um caminho. Pulou na primeira pedra, com
dificuldade passou à segunda e arrastando e contorcendo-se foi passando de
pedra em pedra, tendo a sensação de que chegaria a outra margem. Ao chegar mais
ou menos no meio do rio, percebeu que as pedras distanciavam-se tanto uma das
outras que não era mais possível passar de uma a outra pedra, restando-lhe
apenas cortes e arranhões no ventre. Nesse momento, o Zé desfaleceu, passou por
um cochilo sobre a pedra onde estava e rapidamente acordou. Sonolento, olhou para o infinito, viu ao
longe no rio, lá embaixo, algo como uma garça ou um Martinho pescador voando
tangente a água. Dormiu novamente e quando acordou percebeu o seu engano, não
era aquilo que havia imaginado, talvez fosse algum toco de árvore perdido no
rio. Traído pelo sono e pelo cansaço dormiu de novo, quando foi acordado por um
barqueiro velhinho de barbas brancas.
- Oi, você está perdido, precisa
de socorro?
- Sim, estou querendo passar
para o outro lado do rio e não sei
nadar. È verdade que do lado de lá tem um médico, muito sábio, que cura
qualquer doença?
- Sim, é verdade. Esse médico
sou eu.
- Doutor, o Senhor não é um
barqueiro, mas um médico enviado de Deus! Minha mulher está muito doente e se o
Senhor conseguir um remédio para a cura dela dou tudo que tenho para o Senhor.
- O que ela tem?
- Doutor,
ela sente dor de cabeça, tonteira, está vomitando, a cabeça queima feito fogo,
sente tremedeira e calafrios.
- Qual
o seu nome?
- Meu
nome é Zé.
- José, eu já
sei a doença da sua mulher. Vamos depressa, entra no meu barco e vamos para o
outro lado, em 20 min preparo o remédio para ela e no máximo em dois dias ela
estará boa. Precisamos ser rápidos, então entre no barco, José.
O Zé, com o auxílio do Médico entrou no barco,
e em seguida, o Médico abaixou, tomou os remos, e nesse momento, o Zé interrompeu o Médico, e perguntou.
- Doutor, que
palavras bonitas são essas entalhadas em cada remo?
- São
palavras mágicas, Zé.
- Explica-me o significado
delas?
- Não posso explicar Zé.
Contudo, você me observa quando eu
remar. Antes, porém, leia bem as palavras mágicas.
Ao que o Zé obedeceu prontamente, lendo e
gravando em sua cabeça as tais palavras mágicas. Eram elas: QUERER, SABER, FAZER e finalmente, ESPERANÇA.
O Médico tomou o remo do querer e o
remou, então o barquinho girou para a direita e não saiu do lugar. Em seguida,
o Médico tomou o remo do saber e o remou, o barquinho girou no sentido
contrário e não saiu do lugar. O Médico repetiu a operação com os remos do
fazer e da esperança e de igual modo o barco somente girou. Em seguida, com a
devida cadência, o Médico remou corretamente os remos e o barco singrou rumo à
outra margem com toda a segurança. Do outro lado o Médico preparou rápido o
remédio que ficou pronto em menos de vinte minutos. Tomaram novamente o barco e
o remaram no sentido contrário. Ao chegarem à outra margem, o Médico despediu o
Zé, desejando-lhe boa viagem, ao que o Zé lhe interpelou – quanto lhe devo
pagar Doutor.
- Não vai pagar nada, Zé. Somente
lhe peço que me explique o significado das palavras mágicas. Se você me
explicar, o remédio terá validade e vai curar sua mulher, mas se não souber, o remédio
vai virar água e sua mulher morrerá; tudo depende de você. O Zé ficou
perturbado e achou aquele desafio o mais duro de todos eles, suspirou fundo e
falou.
- Doutor vou lhe explicar: para a
gente conseguir alcançar os nossos objetivos, os nossos sonhos, temos
primeiramente que querer muito. Porém, doutor, querer muito ainda é pouco e com
o querer apenas, giramos, giramos e ficamos no mesmo lugar. Saber, Doutor, é
muito importante, mas o saber sozinho faz com que a gente fique girando no
mesmo lugar. Contudo, Doutor, se queremos, sabemos, mas não fazemos, ainda
assim, ficaremos rodando no mesmo lugar. Portanto, precisamos querer remar,
precisamos saber remar e precisamos remar de fato. Quando tudo isso acontece
igual às cordas de um violão, então a cantiga sai e a gente caminha seguro e
pode ter esperança. Para finalizar Doutor, eu aprendi que somente pode ter
esperança aquele que quer, que sabe e que faz tudo direitinho na hora certa.
-Você entendeu Zé. Pode ir
embora, leve o remédio para a sua amada, ela viverá e ambos hão de remar o
barco e ao atravessarem o rio da vida, vocês serão pessoas realizadas e
felizes, adeus.
Após dois
dias e meio de viagem, o Zé chegou à sua casa e encontrou a mulher, que tanto amava
tão doente quanto a deixou. Ministrou-lhe o remédio que trouxera e dois dias
após a mulher ficou boa e o amou ainda mais.
Autor: Gessé
Antônio de Souza: 04/02/20013
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