quinta-feira, 4 de fevereiro de 2016

A Saga do Zé.

     

       O Zé era um homem muito dedicado, amava a sua esposa profundamente e sempre entendia que daria a vida para salvá-la de qualquer situação que a colocasse em perigo.
       Certo dia, Maria, a esposa do Zé, caiu enferma. Sentia calafrios, dor de cabeça, queimava de febre, vomitava e não aguentando mais, se acamou. O coitado do Zé, ficou muito triste, fez todos os chás da Vovó: Camomila, Macaé, Boldo, Saião, Confrei ...  e nada da Maria melhorar. O Zé, então, foi a um botequim e comprou: Novalgina, Aspirina, AAS, Melhoral e foi dando tudo à Maria, conforme o Boticário lhe indicara. Maria, quanto mais remédio tomava mais doente ficava.  
       O Zé, à cabeceira, deixou derramar rosto abaixo uma lágrima de dor e outra de profunda angústia acompanhada de decepção. Nesse ínterim, olhou perdido - através da janela semi-aberta,   para a pequena rua onde morava, quando à sua frente passava o compadre Bastião aos tropéis pela calçada.
- Bastião, me socorre, sua cumade Maria  está fazendo  termo e precisa de sua ajuda.
Ocorre que o Sr. Sebastião trabalhou em algumas farmácias, no Rio de Janeiro, e por ali se dizia que o Bastião era que nem doutor.
- Oi, Zé. O que aconteceu com a cumade Maria?
- Tá muito doente, cumpade.
- Vou aí vê Ela, disse o Sebastião.
O Sr. Sebastião entrou e foi direto para o quarto da moribunda. Em seguida, com ares de doutor, colocou a mão na testa da doente e sentiu a mão pegar fogo de febre. Observou o corpo caquético, a tez abundante que cobria aquele corpo carente, sobrava pele e faltava corpo naquele quarto sofrido.
- Pelo visto Zé, o caso da cumade Maria é grave e você vai ter que procurar um doutor.
- Mas você não é doutor, Bastião.
- Sou doutor, Zé, mas não para esse caso complicado.
- Mas Bastião, você sabe que aqui na Vila não existe médico, nem farmácia boa, isso aqui é um cafundó do Juda.
- Zé, num brinca comigo, você não dá a vida prá salvar a cumade  Maria?
- Dou, Bastião, prefiro morrer no lugar dela.
- Então vou lhe dá um conselho. Tá vendo aquele trilho que sobe naquela calha entre as duas montanhas, bem ali, à sua frente?
-Tô vendo, Bastião, me diga logo o que tem lá!
- Zé, lá não tem nada, nada mais é que um caminho escarposo, pedregoso, difícil de passar, mas se você seguir por ele e caminhar uns três dias mais ou menos, você encontrará um doutor especial que vai curar a sua patroa, minha distinta cumade.
- Sua expricação é pouca, Bastião!
- Calma, Zé, você está afadigado, vou lhe explicar melhor.
- Olha, caminha uns três dias e se andar bem, então ao cabo do terceiro dia você vai olhar para frente e vai ver um rio. Visto o rio, é só você atravessar para o outro lado. Atravessou; então você arriba a cabeça, olha prá frente como quem tá olhando prum boi no roçado. Você vai ver uma casa, mais ou menos um tiro de espingarda prá sua frente. Se você olhar bem, vai ver uma varanda e nela vai observar um velhinho de barbas brancas parecido com  Papai Noel. Ele vai tá lendo um livro. Esse homem é um sábio e nunca houve na terra quem o procurasse com doença braba que não curasse com umas poucas garrafadas. Então, Zé, como já anoiteceu saia amanhã de madrugada.
- Compadre Bastião, eu não tenho sofrimento prá esperar amanhã, vou agora e quando amanhecer estarei bem longe.
      Assim, saiu o Zé, caminhou noite à dentro pelos caminhos sinuosos e cheios de cascalho durante  toda  aquela noite. Sentia os pés queimando como a cabeça da Maria – sua amada. Por causa do atrito dos pés no cascalho, a poeira e a alergia, racharam-se seus pés durante aquela noite. A caminhada continuou durante o dia e a cada hora crescia um grau na temperatura, pois à medida que o Zé andava em direção ao ponto mais baixo do vale, diminuía a altitude e aumentava a temperatura. Os pés do Zé começaram a sangrar e devido ao cansaço, à caibra, os passos ficaram curtos e perderam altura. Em decorrência de tudo isso, o Zé acabou tropeçando numa pedra e arrancou a unha do dedo indicador de um dos  pés. Contudo, o Zé era cabra macho e não desistia. Aprendera com os pais que nenhum ser humano pode desistir de seu sonho. Para ele, tudo vale a pena se a alma não for mesquinha e pequena. Salvar a Maria era tudo que queria e aquele caminho era dificílimo para quem não tinha caminho, mas para ele que tinha, mesmo assim, esse caminho era um grande carinho.
       Continuou o Zé sua jornada: sede, fome, dor no corpo, dedos inchados, corpo doente e alma sarada, nutrida pelo elixir da esperança. O Zé, na sua relação com o mundo, muita coisa sabia, só não sabia reclamar, queixar ou resmungar.
       No terceiro dia à tarde, ao olhar para frente, eis que o Zé avista o rio. Nesse momento, sentiu-se renovado, correu em direção ao rio e ao chegar à margem, percebeu que o rio era enorme, parecia o Rio Amazonas.
- Meu Deus, como eu vou atravessar esse rio, se não sei nadar?
      Olhou para um lado, para outro e avistou uma moita de bambu, tomou um bambu comprido para testar a profundidade do rio. Após introduzir a sonda de bambu, percebeu que o rio era muito mais fundo que sua altura. Diante dessa situação, o Zé tomou a seguinte decisão: vou andar uns 20km ou 30 km à montante e a jusante do rio - quem sabe se encontro uma ponte ou uma pinguela para eu atravessar.
      Lamentavelmente, o Zé nada encontrou que pudesse passar, porém, avistou umas pedras que se emergiam do rio organizadas de tal forma que parecia fazer um caminho. Pulou na primeira pedra, com dificuldade passou à segunda e arrastando e contorcendo-se foi passando de pedra em pedra, tendo a sensação de que chegaria a outra margem. Ao chegar mais ou menos no meio do rio, percebeu que as pedras distanciavam-se tanto uma das outras que não era mais possível passar de uma a outra pedra, restando-lhe apenas cortes e arranhões no ventre. Nesse momento, o Zé desfaleceu, passou por um cochilo sobre a pedra onde estava e rapidamente acordou.  Sonolento, olhou para o infinito, viu ao longe no rio, lá embaixo, algo como uma garça ou um Martinho pescador voando tangente a água. Dormiu novamente e quando acordou percebeu o seu engano, não era aquilo que havia imaginado, talvez fosse algum toco de árvore perdido no rio. Traído pelo sono e pelo cansaço dormiu de novo, quando foi acordado por um barqueiro velhinho de barbas brancas.
- Oi, você está perdido, precisa de socorro?
- Sim, estou querendo passar para o outro lado do rio  e não sei nadar. È verdade que do lado de lá tem um médico, muito sábio, que cura qualquer doença?
- Sim, é verdade. Esse médico sou eu.
- Doutor, o Senhor não é um barqueiro, mas um médico enviado de Deus! Minha mulher está muito doente e se o Senhor conseguir um remédio para a cura dela dou tudo que tenho para o Senhor.
- O que ela tem?
-  Doutor, ela sente dor de cabeça, tonteira, está vomitando, a cabeça queima feito fogo, sente tremedeira e calafrios.
-  Qual o seu nome?
-  Meu nome é Zé.
- José, eu já sei a doença da sua mulher. Vamos depressa, entra no meu barco e vamos para o outro lado, em 20 min preparo o remédio para ela e no máximo em dois dias ela estará boa. Precisamos ser rápidos, então entre no barco, José.
      O Zé, com o auxílio do Médico entrou no barco, e em seguida, o Médico abaixou, tomou os remos, e nesse momento, o Zé  interrompeu o Médico, e perguntou.
- Doutor, que palavras bonitas são essas entalhadas em cada remo?
-  São palavras mágicas, Zé.
- Explica-me o significado delas?
- Não posso explicar Zé. Contudo, você me observa quando eu  remar. Antes, porém, leia bem as palavras mágicas.
      Ao que o Zé obedeceu prontamente, lendo e gravando em sua cabeça as tais palavras mágicas. Eram elas: QUERER, SABER, FAZER e finalmente, ESPERANÇA.
      O Médico tomou o remo do querer e o remou, então o barquinho girou para a direita e não saiu do lugar. Em seguida, o Médico tomou o remo do saber e o remou, o barquinho girou no sentido contrário e não saiu do lugar. O Médico repetiu a operação com os remos do fazer e da esperança e de igual modo o barco somente girou. Em seguida, com a devida cadência, o Médico remou corretamente os remos e o barco singrou rumo à outra margem com toda a segurança. Do outro lado o Médico preparou rápido o remédio que ficou pronto em menos de vinte minutos. Tomaram novamente o barco e o remaram no sentido contrário. Ao chegarem à outra margem, o Médico despediu o Zé, desejando-lhe boa viagem, ao que o Zé lhe interpelou – quanto lhe devo pagar Doutor.
- Não vai pagar nada, Zé. Somente lhe peço que me explique o significado das palavras mágicas. Se você me explicar, o remédio terá validade e vai curar sua mulher, mas se não souber, o remédio vai virar água e sua mulher morrerá; tudo depende de você. O Zé ficou perturbado e achou aquele desafio o mais duro de todos eles, suspirou fundo e falou.
- Doutor vou lhe explicar: para a gente conseguir alcançar os nossos objetivos, os nossos sonhos, temos primeiramente que querer muito. Porém, doutor, querer muito ainda é pouco e com o querer apenas, giramos, giramos e ficamos no mesmo lugar. Saber, Doutor, é muito importante, mas o saber sozinho faz com que a gente fique girando no mesmo lugar. Contudo, Doutor, se queremos, sabemos, mas não fazemos, ainda assim, ficaremos rodando no mesmo lugar. Portanto, precisamos querer remar, precisamos saber remar e precisamos remar de fato. Quando tudo isso acontece igual às cordas de um violão, então a cantiga sai e a gente caminha seguro e pode ter esperança. Para finalizar Doutor, eu aprendi que somente pode ter esperança aquele que quer, que sabe e que faz tudo direitinho na hora certa.
-Você entendeu Zé. Pode ir embora, leve o remédio para a sua amada, ela viverá e ambos hão de remar o barco e ao atravessarem o rio da vida, vocês serão pessoas realizadas e felizes, adeus.
Após dois dias e meio de viagem, o Zé chegou à sua casa e encontrou a mulher, que tanto amava tão doente quanto a deixou. Ministrou-lhe o remédio que trouxera e dois dias após a mulher ficou boa e o amou ainda mais.

Autor: Gessé Antônio de Souza: 04/02/20013

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