Cores e
Flores
Ontem, refazendo memórias perdidas da infância, me vi caminhando em uma
trilha entre as ondas gordurosas e loiro-avermelhadas do capim gordura (Melinis minutiflora). Quanta saudade da
infância que ficou grudada na florada roxo-aveludada, que ao fim, é mais
gordura que capim!
Quando vinha o vento, às vezes forte
ou sonolento, sem alarde ou tormento - ao chocar-se nos pendões florais da
gramínea romântica e condoreira, produzia ondas outonais que parodiavam bandos
de ovelhas correndo da chuva, rumo ao aprisco. O barulho do vento, os tropeis
dos ovinos, tudo criava um cenário de maravilhosa nostalgia, ainda mais
nostálgico agora, que outrora, considerando o tempo de envelhecimento do vinho
infantil, que não se pode beber mais no cálice da infância, porque esta já se
foi.
Lembro-me das cores e das flores
daqueles tempos gordos e da gordura amarela do leite da vaca Azeitona e da
manteiga globulosa da Andorinha. Relembro-me das revoadas de borboletas
multicoloridas e das águas de março, do março que ficou, porque estamos em maio,
mês aquele que sempre deixava perfumadas goiabas aos peixes, engastadas nos
córregos e riachos.
Lembro-me bem das mexericas maduras,
fofoqueiras por natureza, e das astúcias da meninada buscando estratégias para
sorver o líquido gostoso das cítricas, sem deixar nenhum rastro. Bastava ao
mexeriqueiro larápio apanhar as suculentas mexericas a varapau e quando as
mesmas caíssem ao chão fossem colhidas com uma folha larga de mato ou com um
molambo de roupa velha. Não se podia tocar na fruta mexerica, salvo se a mesma
fosse descascada afogada, dentro de um poço d’água – aí não tinha “cangoete”,
pois seus sumos odoríferos se dissipavam na água.
Muita coisa poderia contar, porém o
que se deseja pinçar dessas lembranças são as cores das frutas e dos pigmentos
das flores da minha infância. Não poderia, até então, saber que rumo tomaria na
escola e quais mexericas me acompanhariam ao longo da tumultuada vida
estudantil disputada pelo trabalho diário, de minha infância rural. O certo,
que aos troncos e barrancos, ora ereto, ora rastejante; formei em Veterinária,
bem depois, em Pedagogia e mais tarde, em Biologia.
Por falar em escola, mais uma vez
relembro a estrada empoeirada ou enlameada, pela qual se caminhavam alguns
quilômetros a pé, até à Escola. Era uma turma de meninos brigões pela estrada
que se contorcia por entre as montanhas e margeada de árvores e goiabeiras nos
barrancos pedregosos.
Não me lembro muito de meninas -,
será que elas não estudavam?
As flores, os insetos, os pássaros,
as chuvas, os morcegos frugívoros e animais frutívoros compunham o retrato e a
paisagem, que no decurso do ano cobriam todas as semanas e meses e estações,
haja vista, percorrer a mesma estrada por todos os dias, salvo minguadas férias
e alguns finais de semana. Às 18:00h ia e às 22:00h voltava, como um pêndulo de
relógio antigo -, nem precisava de muita corda para rodar os ponteiros o ano
todo.
Às vezes me perguntava; por que
tantas flores e insetos? Por que tanto perfume e cor?
Ao entendermos o relógio da vida, ao
ouvirmos o eco da ecologia, porque nem sempre se ouve seu grito, poderemos
perceber que tudo está entrelaçado, formando uma única rede tecida pelas mãos
invisíveis da vida.
Conquanto não se ouça o grito da vida, que pelo
menos se ouça seu eco! Bem-aventurados os que ouvem o eco do gemido da vida,
porque encontrarão um habitat.
Foi ouvindo o silêncio da vida que;
vi, senti e me envolvi com o estreme movimento, desde o labor celular
produzindo essências caras, até pigmentos sofisticados há ornar pétalas e
corolas com o fito de proclamar e perpetuar a vida ad aeternum. As plantas que
não podem movimentar, e são a maioria, encontram formas de dialogar com os
insetos utilizando-se de variados comprimentos de onda, objetivando alcançar o
espectro de preferência dos mesmos. Plantas agradecidas pela visitação de
insetos oferecem aos mesmos fartos repastos de néctar armazenados em túrgidos
nectários florais. Perfumes, os mais variados, tocam nos receptores olfativos
dos insetos, que voam guiados pelas essências florais. As formas de integração
e comunicação dos seres vivos e até dos seres brutos constituem um evento
fantástico.
Os frutos maduros, muitos em geral,
após a fase de crescimento e de camuflagem junto às folhas, durante a maturação
que antecede a dispersão das sementes, encontram nos pássaros, roedores,
morcegos, ruminantes e em outros as devidas estratégias de dispersão de suas sementes.
Os frutos maduros modificam sua atividade bioquímica e exibem cores e perfumes
cobiçados por diversos filos, classes, ordens, famílias, gêneros e espécies de diferentes
animais, que à luz do dia ou à noite são dispersantes das sementes, e
verdadeiros agricultores da natureza.
O ser humano, por sua vez, embora
inserido na natureza, exibe recursos sobrenaturais para relacionar-se com o
meio ambiente que o cerca. Não vou falar das características sedutoras da
criança, nem das transformações corporais e psíquicas da adolescência na busca
do encontro, que os adolescentes reivindicam para si, nessa fase tão importante
da vida. Se a biologia provê, aos adolescentes, quesitos naturais para que os
mesmos se encantem, se dialoguem, se amem, se gamem e eventualmente troquem
seus gametas de modo a darem azo à espécie e sorte a seus sentimentos
psicoemocionais, há que se convir: a
vida humana é mais que biologia.
Na economia humana não vale tanto a
sorte para o sucesso na vida. A vida humana, conquanto fundada na biologia,
repousa-se muito mais na cabeça, que em qualquer outro lugar do indivíduo ou de
suas relações com o outro ou com o meio que o cerca. Por isso, fazer a cabeça é
mais importante que fazer o corpo. Talvez, por isso, Jesus disse: O que entra
na boca não é o que contamina o homem e sim o que dela sai. Educar é preciso,
viver não é preciso!
Gessé Antônio de Souza - 08/04/2016.
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