Da ovelha a lã, do boi
a carne
Passando por Uchuaia, cidade ao sul
do Chile, que pertence a Argentina e por entre aqueles canais que ligam o
Oceano Atlântico ao Pacífico, cenário de grande e pródiga beleza natural, entre
tantas visões surpreendentes, ater-me-ei ao trivial. Refiro-me às muitas
ovelhas, alpacas e lhamas da região da Patagônia, destinadas à tosquia para produção
de lã que se presta à fabricação de lindas indumentárias e tapeçarias
multicoloridas, de rara beleza. Tal cultura e artes, próprias do arquipélago
denominado Terra do Fogo, são inspiradas no frio regional, que forçou os
chamados povos nativos a acenderem fogueiras que se distribuíam por todas as
ilhas do arquipélago. Fogos dispersos e colunas de fumaça vistas pelo grande
navegador português, Fernão de Magalhães, em meio à névoa úmida matinal criou
uma ilusão ótica, tal que parecia, ao navegador, tochas flutuantes sobre o mar
– por isso, Terra do Fogo. Essa região foi habitada por esses índios há mais ou
menos 11 (onze) mil anos e foi colonizada por europeus a partir do meado do
século XIX, a pretexto de catequização e cristianização dos mesmos. O processo
de aculturação e as epidemias a que foram vítimas, desde então, determinaram a
extinção dos aludidos nativos foguinos.
Mais ao norte, na Argentina, observei
rebanhos de bovinos cujo ofício primordial é ofertar seu corpo sagrado
(hinduísmo) aos dentes afiados de humanos e às bocas sedentas por carne macia,
de vorazes comilões que se ajuntam em churrascarias finesses -, verdadeiros
templos sagrados da luxúria dos glutões.
De volta ao Brasil, passando pelas
terras de Santa Cruz, fui tomado por um sentimento, que tocou os refolhos da
minha mente e conduzindo-me a uma reflexão óbvia e ordinária: que se no sul da América
se quer da ovelha a lã e do boi a sua carne, é patético que no Brasil algo
semelhante acontece entre os humanos, isto é, os políticos brasileiros querem
dos ricos e principalmente da classe média trabalhadora, o dinheiro e do pobre,
o voto. Por isso, não faltam fiscais de todo lado vigiando as classes médias;
seja o leão, o guarda rodoviário, o fiscal a quem trabalha. Vê-se: o policial
nas ruas fazendo blitz às pessoas de bem, o fiscal; das águas, da saúde, da educação,
da mata, do boi, da galinha, do peixe, do milho e do feijão, do leite, do
carvão, do fogo, do ovo e da plantação, o fiscal disso e o fiscal daquilo – e
viva a corrupção! Todos querem o bem do país, à custa da nação. Meu Deus, que
danação!
Essa trupe de fiscais ideologicamente arregimentados
pelo governo busca a todo custo o dinheiro para os cofres do estado, que se diz
a serviço do povo, mas por causa da falta de visão republicana que se soma a
uma profunda visão patrimonialista dos governantes, está de fato, a serviço de
si mesmo. Por outro, se observa as
elites endinheiradas, em conluio com os governos, bebendo o sangue que ora foi
retirado principalmente das veias da classe média e dos trabalhadores. Como
visto, não sendo possível sangrar os miseráveis, vamos encontrá-los anestesiados,
vivendo promessas messiânicas salvacionistas, ora prometidas por falsos
religiosos, ora por políticos majoritariamente profanadores da verdade. Desse
modo, multidões de pobres engaiolados em masmorras prisionais, hordas de
crianças abandonadas que se transformam fatalmente em bandos de adolescentes
infratores, provocam o caos na sociedade, roubando a paz e a tranquilidade de
todos. Ninguém, absolutamente ninguém se envolve com esses peregrinos da
miséria. Embora, às vezes, são os menos importunados pela justiça e pelo
exército de fiscais, dando a eles uma falsa ilusão de liberdade e impunidade,
na medida em que tudo podem fazer, sem nenhuma restrição razoável –, seguido de um assistencialismo perversamente
hipócrita. Tais cidadãos de papel, só não podem olhar para o futuro ou almejar
alguma dignidade.
Meu Deus! Se Uchuaia é a capital da
Terra do Fogo, sendo a cidade mais austral do mundo, denominada, por isso, de
Fim do Mundo, penso que tem algo errado nisso, muitíssimo errado. Fim do mundo
é o Brasil...
Crônicas avulsas – Gessé Antonio de Souza –
25/01/2017.
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