segunda-feira, 6 de fevereiro de 2017

Da ovelha a lã, do boi a carne

Da ovelha a lã, do boi a carne

Passando por Uchuaia, cidade ao sul do Chile, que pertence a Argentina e por entre aqueles canais que ligam o Oceano Atlântico ao Pacífico, cenário de grande e pródiga beleza natural, entre tantas visões surpreendentes, ater-me-ei ao trivial. Refiro-me às muitas ovelhas, alpacas e lhamas da região da Patagônia, destinadas à tosquia para produção de lã que se presta à fabricação de lindas indumentárias e tapeçarias multicoloridas, de rara beleza. Tal cultura e artes, próprias do arquipélago denominado Terra do Fogo, são inspiradas no frio regional, que forçou os chamados povos nativos a acenderem fogueiras que se distribuíam por todas as ilhas do arquipélago. Fogos dispersos e colunas de fumaça vistas pelo grande navegador português, Fernão de Magalhães, em meio à névoa úmida matinal criou uma ilusão ótica, tal que parecia, ao navegador, tochas flutuantes sobre o mar – por isso, Terra do Fogo. Essa região foi habitada por esses índios há mais ou menos 11 (onze) mil anos e foi colonizada por europeus a partir do meado do século XIX, a pretexto de catequização e cristianização dos mesmos. O processo de aculturação e as epidemias a que foram vítimas, desde então, determinaram a extinção dos aludidos nativos foguinos.
Mais ao norte, na Argentina, observei rebanhos de bovinos cujo ofício primordial é ofertar seu corpo sagrado (hinduísmo) aos dentes afiados de humanos e às bocas sedentas por carne macia, de vorazes comilões que se ajuntam em churrascarias finesses -, verdadeiros templos sagrados da luxúria dos glutões.
De volta ao Brasil, passando pelas terras de Santa Cruz, fui tomado por um sentimento, que tocou os refolhos da minha mente e conduzindo-me a uma reflexão óbvia e ordinária: que se no sul da América se quer da ovelha a lã e do boi a sua carne, é patético que no Brasil algo semelhante acontece entre os humanos, isto é, os políticos brasileiros querem dos ricos e principalmente da classe média trabalhadora, o dinheiro e do pobre, o voto. Por isso, não faltam fiscais de todo lado vigiando as classes médias; seja o leão, o guarda rodoviário, o fiscal a quem trabalha. Vê-se: o policial nas ruas fazendo blitz às pessoas de bem, o fiscal; das águas, da saúde, da educação, da mata, do boi, da galinha, do peixe, do milho e do feijão, do leite, do carvão, do fogo, do ovo e da plantação, o fiscal disso e o fiscal daquilo – e viva a corrupção! Todos querem o bem do país, à custa da nação. Meu Deus, que danação!
 Essa trupe de fiscais ideologicamente arregimentados pelo governo busca a todo custo o dinheiro para os cofres do estado, que se diz a serviço do povo, mas por causa da falta de visão republicana que se soma a uma profunda visão patrimonialista dos governantes, está de fato, a serviço de si mesmo.  Por outro, se observa as elites endinheiradas, em conluio com os governos, bebendo o sangue que ora foi retirado principalmente das veias da classe média e dos trabalhadores. Como visto, não sendo possível sangrar os miseráveis, vamos encontrá-los anestesiados, vivendo promessas messiânicas salvacionistas, ora prometidas por falsos religiosos, ora por políticos majoritariamente profanadores da verdade. Desse modo, multidões de pobres engaiolados em masmorras prisionais, hordas de crianças abandonadas que se transformam fatalmente em bandos de adolescentes infratores, provocam o caos na sociedade, roubando a paz e a tranquilidade de todos. Ninguém, absolutamente ninguém se envolve com esses peregrinos da miséria. Embora, às vezes, são os menos importunados pela justiça e pelo exército de fiscais, dando a eles uma falsa ilusão de liberdade e impunidade, na medida em que tudo podem fazer, sem nenhuma restrição  razoável –, seguido de um assistencialismo perversamente hipócrita. Tais cidadãos de papel, só não podem olhar para o futuro ou almejar alguma dignidade.
Meu Deus! Se Uchuaia é a capital da Terra do Fogo, sendo a cidade mais austral do mundo, denominada, por isso, de Fim do Mundo, penso que tem algo errado nisso, muitíssimo errado. Fim do mundo é o Brasil...


                                       Crônicas avulsas – Gessé Antonio de Souza – 25/01/2017.

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